Nos anos 1990, Hollywood viveu uma verdadeira febre de thrillers psicológicos com assassinos em série: ‘O Silêncio dos Inocentes‘, ‘Seven‘, ‘O Colecionador de Ossos‘… e no meio desse panteão sangrento surgiu uma joia tensa e elegante chamada ‘Copycat – A Vida Imita a Morte‘, lançada em 1995, cheia de suspense, paranoia e… enciclopédias sobre crimes reais. O filme completa 30 anos de seu lançamento e está fazendo sucesso atualmente na Netflix.
A ideia para o filme partiu do roteirista Ann Biderman, que viria a criar anos depois a aclamada série ‘Ray Donovan‘. O conceito era intrigante: um assassino começa a cometer crimes inspirados em outros famosos serial killers da história, como Jack, o Estripador, e Ted Bundy. Um caso para especialistas, com certeza — e foi justamente isso que tornou o projeto tão atraente para os estúdios na época.

Mas havia um diferencial aqui: o centro da trama seria ocupado por duas mulheres. Nada de detetive homem durão fumando no canto. A protagonista era uma psicóloga criminal reclusa e agorafóbica, e sua aliada, uma detetive durona e sem papas na língua. Bingo! Um thriller policial que quebrava o molde e colocava duas atrizes de peso para sustentar a tensão.
Com o roteiro em mãos, a produção caiu no colo da Regency Enterprises, com distribuição da Warner Bros., em plena fase de ouro do gênero suspense. Quem assumiu a direção foi Jon Amiel, um cineasta britânico que já tinha no currículo o elogiado ‘Sommersby: O Retorno de um Estranho‘ (com Jodie Foster e Richard Gere).

Amiel queria que o filme tivesse uma abordagem mais cerebral do que sanguinolenta. Em vez de cenas gratuitas de violência, o diretor preferiu focar na psicologia dos personagens e em como o medo pode paralisar, tanto literal quanto emocionalmente. A atmosfera do longa é sufocante, densa, mas com um visual elegante — quase como uma versão noir high-tech dos anos 90.
O diretor também se preocupou em criar um vilão que fosse mais do que apenas um psicopata: alguém que acreditava ter um propósito, ainda que distorcido. O resultado é um jogo de gato e rato tenso, onde a única constante é o medo.

A estrela do filme é ninguém menos que Sigourney Weaver, num dos papeis mais complexos de sua carreira. Ela interpreta a Dra. Helen Hudson, uma renomada psicóloga criminal que, após ser atacada por um ex-paciente, desenvolve um quadro severo de agorafobia e passa a viver trancada em seu apartamento, cercada por tecnologia, livros e ansiedade.
Do outro lado da história, temos a excelente Holly Hunter, no papel da detetive M.J. Monahan — uma policial durona, sarcástica e altamente competente. A dinâmica entre as duas atrizes é o coração do filme: Helen é o cérebro, M.J. é a ação. Ambas são feridas, mas determinadas.

O vilão é interpretado por William McNamara, que entrega um desempenho perturbador como o jovem Peter Foley, um assassino com fascínio por serial killers clássicos. E não dá pra esquecer do sempre eficiente Dermot Mulroney, como o parceiro de M.J., e do inquietante Harry Connick Jr., que interpreta Daryll Lee Cullum, o maníaco preso que já tentou matar Helen e ainda assombra sua mente com telefonemas e citações assustadoras.
A história de ‘Copycat‘ gira em torno da Dra. Helen Hudson, que após sobreviver ao ataque de um serial killer, decide nunca mais sair de casa. Sua vida se resume a janelas fechadas, encontros virtuais e palestras online — lembrando que isso era 1995, muito antes do Zoom virar moda.

Mas sua reclusão é abalada quando um novo assassino começa a atacar vítimas seguindo padrões de famosos serial killers da história. Os crimes são meticulosamente copiados: as poses, os métodos, até os locais. A polícia percebe que não está lidando com um assassino comum, e M.J. recorre à única especialista capaz de identificar o padrão — Helen.
Juntas, Helen e M.J. tentam decifrar a identidade do assassino, num jogo de tempo e mente. O problema é que o assassino também está observando Helen, e sabe exatamente como fazê-la quebrar. O suspense cresce em ritmo acelerado, culminando num terceiro ato cheio de tensão, tiroteios e uma das melhores reviravoltas do gênero.

Lançado no final de outubro de 1995, ‘Copycat‘ foi bem recebido pela crítica, embora tenha sido um pouco ofuscado por outros thrillers da década. A direção segura de Amiel e o roteiro bem estruturado foram elogiados, mas o que realmente conquistou os críticos foram as atuações centrais.
Sigourney Weaver foi amplamente aclamada por sua interpretação vulnerável, mas afiada, de uma mulher traumatizada tentando superar seus medos. Holly Hunter, por sua vez, brilhou com uma personagem carismática, firme e completamente diferente de seus papeis anteriores.

A crítica também destacou o roteiro inteligente e a abordagem mais contida da violência, com suspense mais psicológico do que explícito. Alguns críticos compararam o filme com ‘O Silêncio dos Inocentes‘, apontando que, embora não tivesse o mesmo impacto cultural, ‘Copycat‘ era mais realista em sua abordagem do medo e da obsessão.
‘Copycat‘ estreou no fim de semana do dia 27 de outubro de 1995. Nessa época, outro filme de serial killer dominava as bilheterias: ‘Seven‘, de David Fincher, lançado no final de setembro, o longa permaneceu em primeiro lugar das bilheterias por quatro finais de semana. Quando ‘Copycat‘ estreou, ‘Seven‘ já havia caído para sexta posição, e o topo da bilheteria era dominado pela comédia ‘O Nome do Jogo‘, com John Travolta e Gene Hackman, que também permaneceu bastante tempo como número 1 – por três semanas.

‘Copycat‘ estreou em quarta posição do ranking, com US$5.1 milhões. Como dito, o primeiro lugar pertencia a ‘O Nome do Jogo‘, mas outras duas estreias foram melhores que a do thriller. Em segunda posição, o drama sobrenatural ‘Energia Pura‘, com Jeff Goldblum. Pouco mencionado hoje em dia, na época o longa fez certo sucesso, e abriu com US$7.1 milhões. Em terceira posição, o “terror” de Eddie Murphy, ‘Um Vampiro no Brooklyn‘, que abriu com US$7 milhões.
Com um orçamento estimado em US$ 20 milhões, ‘Copycat‘ teve um desempenho razoável nas bilheteiras: faturou cerca de US$32 milhões nos Estados Unidos, e um total global de mais de US$60 milhões. Não foi um blockbuster, mas também não foi um fracasso — foi o típico “thriller de respeito”, que encontrou seu público aos poucos.

O filme se destacou especialmente no mercado de home video e nas locadoras, onde virou presença constante nas prateleiras de suspense. Muita gente descobriu o longa por acaso em VHS ou DVD, o que ajudou a construir seu status de cult ao longo dos anos.
Além disso, o timing atual ajudou: com o crescimento do interesse por true crime e serial killers, ‘Copycat‘ ganhou um novo fôlego ao ser constantemente citado em listas do tipo “thrillers esquecidos que valem a pena”.

Em 2025, três décadas depois de sua estreia, ‘Copycat – A Vida Imita a Morte‘ se mantém como um dos thrillers mais subestimados dos anos 1990. Em tempos de podcasts sobre crimes reais, séries como ‘Mindhunter‘, documentários da Netflix sobre serial killers e até comédias como ‘Only Murders in the Building‘, o filme parece até mais relevante hoje do que em sua época.
A dinâmica entre Sigourney Weaver e Holly Hunter envelheceu como vinho, e o enredo que gira em torno do medo, do trauma e da obsessão permanece assustadoramente atual. O filme também é celebrado por ser um dos poucos thrillers do gênero com duas protagonistas femininas fortes — sem precisar sexualizar ou forçar estereótipos.

Reassistido hoje, ‘Copycat‘ é uma aula de suspense elegante: silencioso, calculado, cheio de tensão e sem perder o apelo pop. Seu vilão não é só assustador — ele é plausível. E isso é o que torna o filme ainda mais eficaz.
‘Copycat‘ pode não ter ganhado o Oscar ou virado uma franquia milionária, mas deixou sua marca como um dos thrillers mais inteligentes e bem construídos da década de 90. E cá entre nós: poucos filmes conseguem fazer você olhar por cima do ombro depois de desligar a TV.
