O aclamado cineasta belga Lukas Dhont detalhou recentemente seu processo criativo para o desenvolvimento de seu mais novo longa-metragem, ‘Coward’ (Covarde, em tradução livre). O diretor explicou a origem histórica que o inspirou a construir uma sensível história de amor homossexual ambientada em meio ao cenário devastador das trincheiras da Primeira Guerra Mundial.
De acordo com a Variety, a ideia para o filme surgiu após o cineasta encontrar uma série de fotografias raras em preto e branco que retratavam soldados encenando espetáculos improvisados para suas tropas. Como parte das apresentações, alguns homens utilizavam técnicas de crossdressing, vestindo-se como mulheres para interpretar desde dançarinas de can-can até esposas apaixonadas e mães enlutadas.
“Era uma parte da história que eu nunca tinha visto ser retratada antes. Isso fez minha imaginação fluir. Pensei: ‘Seria muito especial ver esses homens criando uma peça teatral enquanto, ao fundo, há explosões, a guerra continua acontecendo e a morte está por toda parte'”, contou Dhont.
Conhecido por suas obras intimistas, o diretor revelou o desafio técnico e emocional de equilibrar a escala de um filme de época com a delicidez de seus trabalhos anteriores:
“Foi o filme mais desafiador que já fiz. Eu estava fazendo um filme de guerra, mas precisava encontrar uma maneira de manter a intimidade que amo nos meus trabalhos anteriores. Foi um exercício de criar uma produção maior e mais ambiciosa, sem perder a verdade emocional dos personagens. Existe muita violência, brutalidade e homens destruindo ou sendo destruídos, mas também há romance”, acrescentou.
Dhont também aprofundou as nuances por trás do título ‘Coward’. Em um primeiro nível, o termo faz referência direta aos soldados que, esgotados pelo trauma e pela carnificina, desertavam de seus postos, uma decisão que, na época, era rotulada como covardia e punida com execução, mas que também exigia imensa coragem.
“Queria examinar nossas noções de heroísmo. Nos filmes de guerra, a masculinidade costuma ser retratada de forma muito limitada. Existe essa ideia de que lutar pelo país é sempre algo nobre, e o medo de ser chamado de covarde destruiu muitas pessoas ou levou várias delas à morte”, destacou.
Diante dos conflitos geopolíticos contemporâneos em territórios como a Ucrânia e o Oriente Médio, o cineasta ressalta que as discussões propostas pelo longa ressoam fortemente com o cenário global atual, trazendo de volta debates sobre o serviço militar obrigatório na Europa.
“Estou falando do passado, mas existe a sensação de que estou contando algo sobre o presente. Há discussões sobre o retorno do serviço militar obrigatório. E isso faz você pensar: o que faria? Lutaria pelo seu país ou tentaria resistir a esse ciclo de violência?”, explicou.
Um dos pontos mais intrigantes destacados pelo diretor é a ironia de que, justamente à beira da morte e em uma época em que a homossexualidade era rigidamente criminalizada pela sociedade, os protagonistas consigam experimentar um senso único de comunhão:
“O mais interessante é que, nesses tempos sombrios, eles são mais livres do que a sociedade permitia que fossem, ou do que voltarão a ser quando a guerra acabar. Ao longo da história, heroísmo sempre esteve ligado à capacidade masculina de ser brutal. Eu queria inverter isso e falar sobre a coragem necessária para amar”, destacou.
O vínculo pessoal com o projeto também se estende à geografia. Natural da Bélgica, Dhont destacou o peso de viver cercado pelas marcas físicas do conflito histórico: “Eu moro em Flandres, no mesmo solo onde a Primeira Guerra foi travada. Quando dirijo pela região, passo por cemitérios cheios de jovens que deram suas vidas na guerra. Fazer este filme foi quase um ato transcendental de trazer essas histórias de volta à vida”.

O filme acompanha a jornada de Pierre (Emmanuel Macchia), um jovem soldado belga cujo idealismo e desejo de provar seu valor no campo de batalha começam a ruir diante da brutalidade real do front. À medida que se desilude com o conflito, ele inicia um intenso e transformador romance com Francis (Valentin Campagne), um companheiro de batalha encarregado de organizar as peças teatrais para elevar o moral do exército.
A sinopse oficial introduz a premissa da obra: “O jovem soldado Pierre deseja provar seu valor no campo de batalha durante a Primeira Guerra Mundial. Longe da linha de frente, ele conhece Francis, que recebe a missão de encontrar uma maneira de elevar o moral das tropas”.
Além de assumir a direção, Lukas Dhont assina o roteiro de ‘Coward’ ao lado de seu colaborador de longa data, Angelo Tijssens.





