Tem momentos na vida de um cinéfilo que ele ou ela se dá conta, ao final de uma sessão, que está diante de uma obra prima, um filme desses que entram pra memória coletiva e do qual ainda falaremos durante muito tempo. É a sensação ao final da sessão de ‘A Bola Preta’, filme escolhido para representar a Espanha na concorrência ao Oscar e também escolhido como filme de abertura do Festival do Rio esse ano.

‘A Bola Preta’ é dividido em três tempos. O início da história começa em 1932, quando conhecemos o jovem Sebastián (Guitarricadelafuente), no interior da Espanha à espera do exército italiano, prestes a saudá-lo com festa quando uma grande tragédia ocorre e ele acaba recrutado ao exército espanhol. A segunda parte acontece em 1937, quando o soldado Sebastián conhece o prisioneiro Riccardo (Lorenzo Zurzolo), que detém um segredo valioso que fará com que a vida dos dois fique cruzada para sempre. Por fim, já em 2017, Alberto (Carlos González), um historiador musical em busca de propósito na vida e que está fugindo de sua rotina acaba esbarrando num grande segredo familiar, que trará à tona questões muito mais profundas do que se poderia imaginar.
‘A Bola Preta’ tem tantas, tantas camadas e constrói tudo com uma delicadeza tão primorosa, que faltam palavras para descrever a sublimidade que é esta história. É preciso sentir. Ao fim, as duas horas e meia de duração parecem poucas diante da enormidade do que vemos na tela.
Em um primeiro momento, parece que o roteiro de Javier Calvo, Javier Ambrossi e Alberto Conejero irá apenas tratar as inquietudes de um jovem cuja masculinidade é colocada em xeque em tempos de guerra e afirmação identitária do país. É neste contexto que o título do longa é explicado: em uma votação para admitir Sebástian em um clube de homens (o famoso “clube do bolinha”, e aí o trocadilho é explicado), o grupo vota a admissão escolhendo bolas – brancas para positivas, pretas para rechaços.

Mas a bola preta e o contexto de guerra é apenas o início, a ambientação de um enredo muito maior, que atravessa o pessoal dos personagens, atravessa quase um século do tempo, atravessa questões de identidade de gênero e sexualidade, atravessa os segredos, os silêncios, as artes, um país até hoje fraturado (a Espanha) e vai tocar bem no fundo dessa ferida, num ponto tão sensível quanto belo, cuja voz ressoa até hoje nos ouvidos dos emocionados. [E neste momento falaremos um spoiler, que fica a critério querer saber ou não]. Por fim, o filme tece um panorama eloquente para falar de um dos maiores nomes de sua história: o poeta Federico García Lorca, morto pelo exército espanhol por se identificar como homossexual.
Se num primeiro momento o vai e vem do roteiro causa certa inquietação (afinal, leva um tempo até entendermos a conexão entre os três tempos, isso já ocorre com quase duas horas de longa), no momento em que tudo se conecta fica impossível não segurar as lágrimas. De maneira avassaladora, o filme revela sua verdadeira intensão, os personagens, os pontos se conectam e a verdade, terrível e emocionante, sacode o espectador para a realidade estampada: o que mudou?

Os diretores Javier Calvo e Javier Ambrossi confluem seus trabalhos com sincronia e fluidez de modo que ao espectador tudo possui uma única identidade, uma única intensão: despertar a poesia, apesar da guerra. Para tal, as tomadas belíssimas, os enquadramentos que mais parecem obra de arte, as inserções precisas da trilha sonora, as referências artísticas, os sentimentos que explodem na tela tal qual um quadro, os diálogos tão doloridos quanto certeiros: todos os detalhes parecem ter sido pensados a partir do coração, cuja pulsação imprime o ritmo do filme.
E no meio disso tudo ainda temos as participações luxuosíssimas de duas enormes atrizes em ‘A Bola Preta’: Penélope Cruz, que também é produtora do projeto e faz uma personagem que, é verdade, não tinha necessidade, mas imprime ainda mais beleza e melancolia num enredo que a todo momento busca se agarrar no respiro de poesia que há no mundo; e Glenn Close, magnânima como uma especialista em poesia espanhola, com várias falas em castelhano e que demonstra que uma boa atriz só precisa de um personagem com propósito para expor toda a sua sabedoria.
‘A Bola Preta’ é um dos melhores filmes desse ano, e deve ganhar muitos prêmios na temporada de fim de ano. Mas, acima de tudo, é um lindo filme que mostra como a poesia é a luz em tempos sombrios. ‘A Bola Preta’ é um gesto de amor em tempos de ódio. Imperdível.



