Um dos últimos filmes brasileiros que assisti durante o Festival do Rio 2026 foi um dos que mais gostei. Em seu segundo longa-metragem na carreira, a cineasta Thais Fujinaga apresenta Talismã, uma pequena obra-prima que, com muita leveza, rompe camadas e acessa, de forma profunda, uma relação entre mãe e filha, convidando o público a conhecer um exposto mosaico de sentimentos conflitantes sob a luz dos holofotes.

Nesse delicado retrato de cerca de 80 minutos, que provoca boas críticas sobre a espetacularização da realidade pelos reality shows, vamos passeando pelas barreiras dos sonhos e pelas oportunidades que surgem, chegando rapidamente num retrato intimista que fortifica as relações afetivas. A narrativa é deliciosa, trocando a melancolia pela vivacidade e a esperança, sem deixar de explorar os silêncios, as decepções e as angústias que atravessam essa história.

Pina Maria (Sophia Fuggacy) é uma menina de seis anos que vive com sua mãe, Tereza (Fernanda Chicolet), em Guaíba, na região sul do nosso país. Elas saíram do Rio de Janeiro tempos atrás para morar próximo ao avô (Stepan Nercessian). Pina é super esperta e consegue a chance de concorrer no Talismã Kids, um reality show de talentos mirins. Teresa, uma professora de dança que luta para sobreviver na profissão artística que escolheu, embarca com a filha por esse sonho, em meio a momentos nos quais o passado e as oportunidades perdidas se chocam com o presente.
Num ping pong de perspectivas, temos uma jovem que, com seu olhar imaturo, observa os conflitos da pessoa mais importante do mundo para ela. Ao mesmo tempo, temos uma mãe que expõe as dificuldades de oportunidades perdidas no passado e das escolhas que a conduziram por outros caminhos. Na bicicleta diária rumo à barca que liga guaíba à porto alegre, elas não desistem dos seus sonhos. Enfrentam julgamentos e o cancelamento de uma exposição nacional, percorrendo do sucesso ao fracasso, de mãos dadas, enfrentando o que deixaram para trás e sempre vendo uma luz no fim do túnel.
Crítica | ‘London’ – Um dos grandes filmes do Festival do Rio 2026
Essa família desbocada, que gosta de se expressar e tem a espontaneidade como marca, é colocada em cena de forma natural. Alguns diálogos, na linha do tragicômico, vão nos aproximando cada vez mais dos importantes assuntos que a obra propõe para reflexões. Impressiona a qualidade harmônica do elenco em cena: acreditamos, a todo instante, que essa família realmente existe.
Um dos grandes méritos do projeto é revelar o que não é expresso em palavras, algo bem difícil de se fazer, fruto de uma eficiente condução de Fujinaga, que amplia o alcance do sentir através também por meio do sensorial, na potência do que é captado. Nada é por acaso em cena, nem mesmo quando traz uma cidade do interior como personagem, elemento que se liga ao desenvolvimento dos personagens.

Talismã é um enorme achado em meio à maravilhosa programação que ofereceu o Festival do Rio 2026. Um belo filme que parte da simplicidade e vai abrindo seus leques de emoções de maneira a conquistar a todos nós.


