Quando conhecemos bastante o trabalho de algum artista, ficamos pensando em como serão construídas suas próximas narrativas e, sempre, tudo começa com um personagem interessante. Assim, cheguei a mais um dia do Festival do Rio 2026 ansioso para conferir Mr. Wonderful, novo trabalho da excelente documentarista carioca Susanna Lira.
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Dessa vez, tendo como elemento principal um personagem que se mostra um grande contador de histórias, que driblou o machismo e o preconceito desde o início de sua carreira e consolidou uma trajetória de sucesso no mundo da moda, Susanna nos apresenta Luiz de Freitas, o Mr. Wonderful, primeiro estilista negro do Brasil.

A dinâmica proposta é simples e bastante eficiente. Personagens importantes da vida do artista se sentam em um divã e conversam com o próprio Luiz (inclusive ele mesmo, num temperinho de docuficção). Assim, chegamos em histórias que vão desde lembranças da família e dos intensos amores até questões sociais que marcaram gerações passadas, como a Aids, além de seus principais trabalhos na carreira, como a colaboração no figurino da famosa Comissão de frente da Estação Primeira de Mangueira, no final dos anos 1990, quando a escola de samba homenageou Chico Buarque.
Mas não pensem que é simplesmente ligar a câmera e deixar o papo correr. Com muita habilidade e um domínio total do que acontece em quadro, Susanna acopla uma visão macro da moda e da sociedade, passeando pelas gerações e pelas inspirações do protagonista que recheiam um contexto que se mostra extenso. Para ilustrar o que chegava de assunto através dos deliciosos bate-papos, utiliza fotos antigas e matérias de jornais.
Ao longo de seus 77 minutos, resgatando a importância desse estilista carioca que foi sendo esquecido ao longo do tempo, Mr. Wonderful desfila, de forma harmônica, a elegância e os movimentos de um carismático forrest gump da moda, que viveu intensamente e precisa ser novamente reconhecido.


