Crítica 2 | O Relatório – Adam Driver e Annette Bening estrelam importante e envolvente drama investigativo

Crítica 2 | O Relatório – Adam Driver e Annette Bening estrelam importante e envolvente drama investigativo

Nota:


Roteirista conhecido por produções como O Ultimato Bourne, O Desinformante!, Terapia de Risco e, mais recentemente, A Lavanderia, Scott Z. Burns faz sua estreia na direção nos cinemas com O Relatório. Antes disso, havia dirigido apenas um telefilme, curtas e episódios de séries como Californication. E podemos dizer que trata-se de uma bela estreia.

O novo longa conta a história por trás de uma investigação do Senado dos Estados Unidos sobre as atitudes da CIA pós-11 de setembro, especialmente a utilização de técnicas de tortura para tentar obter informações sobre possíveis ataques terroristas. Adam Driver vive um idealista funcionário de uma senadora (Annette Bening) que recebe a missão de comandar a investigação. Aos poucos, ele e sua pequena equipe vão percebendo o quanto havia de desinformação no meio e o quão pouco eficazes eram os métodos de tortura.

Driver é o centro das atenções da trama e prova mais uma vez ser um ator talentosíssimo. Ao longo da produção do relatório sobre a CIA, seu personagem fica cada vez mais afetado pelo que descobre. E o medo de ver o tal relatório ser abafado pelo governo fica cada vez maior com o passar da história. 

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O elenco conta ainda com uma série de pequenas, mas marcantes, participações, como Corey Stoll, Jon Hamm, Maura Tierney, Michael C. Hall, Tim Blake Nelson, Ben McKenzie, Jennifer Morrison, Ted Levine e Matthew Rhys. Todos estão muito bem em cena e ajudam a dar uma seriedade ao projeto. De forma inteligente, Burns usa suass celebridades para interpretarem pessoas importantes, mas menos conhecidas da vida política americana. Desta forma, nomes mais conhecidos como Barack Obama, Dick Cheney, John Kerry, Donald Rumsfeld e John McCain surgem apenas através de imagens de arquivo.

The Report (no original) vai atingir em cheio os mais apaixonados por filmes políticos e investigativos, como Todos os Homens do Presidente, Zodíaco, Intrigas do Estado e muitos outros. Sem necessariamente soar muito didático, o filme consegue explicar com muitos detalhes toda a investigação, sem suavizar para a CIA ou para os dois principais partidos americanos.

Parceiro de longa data de Steven Soderbergh, que aqui atua como produtor, Scott Z. Burns se mostrou bastante inspirado pelo amigo no uso da fotografia, especialmente no uso de algumas imagens mais saturadas para retratar as cenas de tortura. Diretor de fotografia de House of Cards, Eigil Bryld faz um belo trabalho na produção, principalmente no retrato imponente da cidade de Washington. Por sinal, a obra não poupa o espectador, o confrontando com várias das técnicas empregadas pelos agentes americanos no período. Ainda no time técnico, o montador Greg O’Bryant faz um belo trabalho ao mesclar cenas da investigação ao longo de cinco anos com flashbacks dos abusos da CIA.

Se o diretor comete um pecado, talvez seja se mostrar tão idealista quanto seu protagonista. Em seu trecho final, O Relatório se perde um pouco no melodrama de tentar mostrar como os Estados Unidos aprenderam com os próprios erros. Apesar disso, é inegável que a história, no geral, não poupa o governo norte-americano e oferece muitos detalhes desconhecidos pelo grande público, como a própria ineficiência das técnicas de tortura.

Com diálogos envolventes e engajados, o filme fala sobre arcar com as consequências e sobre como o medo pode desencadear em um efeito borboleta que se torna algo grande e duro demais para ser abafado. 

Filme visto durante a cobertura da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo



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