terça-feira, janeiro 6, 2026

Crítica 2 | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Rose Byrne encara a maternidade como horror cotidiano

CríticasCrítica 2 | Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria: Rose Byrne encara a maternidade como horror cotidiano

Lançado em Sundance e consagrado com o prêmio de Melhor Interpretação Principal na mostra competitiva do Festival de Berlim em 2025, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria (If I Had Legs I’d Kick You), de Mary Bronstein, é um daqueles filmes que não pedem empatia: exigem resistência. Nele, a maternidade surge não como redenção, mas como um campo minado emocional, físico e psíquico. Uma comédia dark de humor rarefeito e atmosfera sufocante.

Também indicada ao Globo de Ouro de 2026, Rose Byrne recebe um reconhecimento não apenas justo, mas simbólico. Conhecida principalmente por papéis cômicos no cinema norte-americano, como Vizinhos (2014), Byrne encontra aqui um papel que exige entrega absoluta. A protagonista Linda (Byrne) é uma mulher em estado permanente de exaustão: mãe, esposa, terapeuta, cuidadora integral de uma filha doente — uma criança que nunca aparece em cena, mas domina o filme inteiro.



E essa ausência é uma das decisões mais inteligentes (e cruéis) da diretora e roteirista Mary Bronstein. A filha existe apenas como som e como ameaça. Uma doença misteriosa — nunca nomeada, nunca diagnosticada de forma clara — sustenta a narrativa numa ambiguidade inquietante: estamos diante de uma condição física real ou de uma projeção do medo, da culpa e da paranoia materna? O tubo ligado ao corpo da menina se torna um símbolo radical, um metafórico cordão umbilical, dessa relação de dependência absoluta: se ele for retirado, talvez ela não sobreviva.

Em seu segundo longa-metragem, Bronstein constrói uma maternidade atravessada por ressentimento, raiva, desejo de fuga e, sobretudo, ambivalência — sentimentos frequentemente varridos para debaixo do tapete por narrativas mais conciliatórias. Aqui, cuidar do outro não aparece como virtude moral, mas como um processo de anulação. Essa abordagem torna inevitável a comparação com Canina (Nightbitch), adaptado pela Disney por Marielle Heller no ano passado. Ambos partem do mesmo ponto: a maternidade como experiência corporal extrema, quase monstruosa. Mas onde Canina optava por uma alegoria esvaziada, diluindo sua fúria em uma mensagem final positiva — e, por isso mesmo, inofensiva —, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não oferece catarse. Não há aprendizado, nem redenção. 

O filme sustenta a ameaça de que uma mãe sobrecarregada pode ser a coisa mais perigosa que existe na vida de um filho. Essa é talvez sua ideia mais perturbadora — e também a mais honesta: a relação fundadora entre mães e filhos é traumática. Bronstein não suaviza isso. Pelo contrário, ela encena essa angústia como um processo contínuo, cotidiano, banal. De forma quase fantástica, um buraco gigantesco se abre no apartamento, obrigando mãe e filha a se mudarem para um motel decadente. Ali surgem figuras excêntricas: uma recepcionista hostil (Ivy Wolk) e um vizinho inesperadamente acolhedor e permanentemente entorpecido (A$AP Rocky).

Mesmo nesses raros momentos de contato humano, qualquer tentativa de alívio é imediatamente atravessada pela inquietude — cada vez que Linda se afasta da filha, o filme instala a sensação de que algo terrível pode acontecer se essa mãe ousar existir fora dessa função por algumas horas. O horror não vem de monstros externos, mas da repetição, da privação de sono, da solidão, da culpa constante. O pai sempre ausente (Christian Slater) é reduzido a uma voz distante na rotina doméstica.

Formalmente, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria adota uma estética da ansiedade. A câmera colada ao rosto de Byrne, o som invasivo, a sensação constante de deslocamento, tudo contribui para um estado de alerta permanente. Produzido por Josh Safdie e Ronald Bronstein, o filme compartilha dessa energia nervosa, quase claustrofóbica, que transforma o cotidiano em um campo de desgaste emocional. 

E é justamente aí que Rose Byrne se impõe como o coração pulsante do filme. Sua atuação nunca cai na caricatura ou na histeria fácil. Há raiva, sim, mas também vergonha, tristeza, confusão e um pedido silencioso de socorro. Em uma das cenas mais fortes, ao lado do terapeuta (Conan O’Brien), Linda verbaliza um pensamento que muitos pais jamais ousariam admitir. É um momento devastador, não pelo choque, mas pelo reconhecimento.

Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria não quer ser confortável, nem exemplar. Mary Bronstein não está interessada em agradar — está interessada em expor. E mesmo que o filme tropece aqui e ali em sua opacidade ou excessos, ele nunca trai sua proposta. Ao contrário de tantas narrativas sobre maternidade que se perdem em boas intenções, esta entende que há experiências que não pedem solução, apenas enfrentamento. A obra, assim, permanece como um incômodo.

 

Lançado no Festival de Sundance e premiado no Festival de Berlim 2025, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria tem lançamento marcado no Brasil em 1 de janeiro de 2026, com distribuição da Synapse Distribution

author avatar
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.
MATÉRIAS
CRÍTICAS

NOTÍCIAS