O MELHOR DE NOLAN… TIRANDO O BATMAN!

 

Excluindo a Trilogia Batman, Interestelar (Interstellar) é o melhor trabalho de Christopher Nolan. Essa exclusão é necessária para se ter noção dos avanços desse seu novo trabalho. Acontece que a Trilogia Batman é muito boa, inevitavelmente colocando Interestelar em segundo lugar. Outra razão para se colocar de lado a Trilogia é porque não é um trabalho “plenamente autoral”. Sim, Nolan teve uma autonomia absurda, mas o projeto não partiu dele; e alguma limitação havia, ainda que fosse a grandeza do herói. Desse jeito, comparando Interestelar com seus trabalhos mais autorais, como Amnésia ou A Origem, a evolução do diretor fica mais evidente (Vá lá!, o filme não faria feio se comparado com O Cavaleiro das Trevas Ressurge…).

A evolução mais perceptível de Nolan é o lado humano. Pela primeira vez, as emoções de suas personagens são sentidas pelo espectador. Mesmo em sua obra-prima – O Cavaleiro das Trevas – essas emoções são “teorizadas”. Em tese, Harvey Dent está destruído pela morte de Rachel; em tese, Leonardo DiCaprio, em A Origem, sofre por sua amada (Marion Cotillard), mas o espectador não sente na alma essa dor. Os dramas de Cooper (Matthew McConaughey) são sentidos pelo público, e o culpado não é apenas a qualidade do ator.


Cooper não embarca na missão para salvar a Terra, mas para salvar sua família. Nisto Interestelar é diferente da maioria das produções sobre fim do mundo. A primeira hora é gasta para construir a relação entre Cooper e sua filha Murph (Mackenzie Foy), tanto por pequenos gestos, quanto por diálogos, como quando ele explica para a filha que não existem fantasmas.

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O espectador não só é informado das motivações de Cooper, ele sente. O ato de deixar os filhos para trás para salvá-los seria provavelmente o gesto da maioria da plateia – ao menos daqueles que tem algum afeto escondido. Quantos recusariam uma chance, mesmo remota, de salvar seus filhos?

O tema de Interestelar não é apenas a sobrevivência da nossa raça, mas a sobrevivência daqueles que amamos. Ele toca em dois sentimentos primitivos: amor e sobrevivência. Esses sentimentos são mencionados em uma penca de filmes-catástrofes. Aqui, a diferença é a paciência de envolver os sentimentos da plateia. Uma coisa é gastar alguns instantes com declarações burocráticas sobre o amor filial. Outra coisa é usar 60 minutos de projeção para depurar a relação de duas personagens. Essa opção do diretor fez toda diferença, dando até mais urgência às dificuldades da missão.

Outra coisa inédita nos filmes do diretor, a ação não sufoca o lado humano. Nolan sempre usou com competência os efeitos práticos (aqueles obtidos durante as filmagens, sem ajuda do computador) e a montagem em paralelo (várias ações exibidas ao mesmo tempo até um ponto de desfecho) para arrancar adrenalina do público. Porém, o lado humano ficava em segundo plano. Em Interestelar, os laços afetivos reforçam a tensão.

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As demais qualidades de Nolan estão presentes, com destaque para o roteiro engenhoso e para a concepção visual do filme, especialmente nas cenas do espaço. Até um defeito de Nolan passa quase despercebido: os diálogos didáticos e expositivos encontram a função de explicar conceitos da Física.

Contudo, as falhas impedem de tirarmos de O Cavaleiro das Trevas o título de “maior trabalho do diretor.” Fora dos temas científicos, o roteiro expositivo fica óbvio e patético; diálogos cafonas, – como quando Brand (Anne Hathaway) fala pela primeira vez sobre amor – o uso pouco inspirado da música – além do mais, a trilha de Hans Zimmer é fraquinha. Há até uma sequência em paralelo – marca do diretor – enfadonha.

Não poderia deixar de comentar o final do filme. Assim, quem não quiser spoilers, obrigado pela leitura!

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É curioso como o diretor estimulou as comparações com 2001 – Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick. Ele disse: “Sempre que se pensa em ficção científica, há os marcos: MetrópolisBlade Runner2001. Sempre que uma trama viaja para fora do planeta é inevitável pensar em 2001. Mas só existe um único 2001. É preciso manter uma certa distância [do filme de Kubrick].”

Que bom que ele reconhece! Nolan é exaustivo demais para alcançar o patamar de um 2001Kubrick é simbólico, fugindo de explicações e produzindo imagens que permitem múltiplas interpretações. Nolan parece que não se aguenta! Tudo é explicado, drenando o lado simbólico. Seus filmes são uma espécie de jogo: uma estrutura engenhosa para o público decifrá-la na mesa da lanchonete. Mas, depois de decifrada, a carga simbólica é baixa. Se em 2001… o monólito pode representar da aurora do conhecimento humano à angustia do protagonista, em Interestelar, o fundo do buraco negro será…

Ao longo do filme, o surgimento do buraco de minhoca é atribuído a uma divindade, uma força cósmica dando uma mãozinha para a humanidade. Depois de Cooper cair no buraco negro, – um dos cenários mais impactantes do filme – uma nova explicação surge: para Cooper essa divindade seríamos nós mesmos, seres humanos em um estágio mais avançado.

É tudo tão amarrado que poucos simbolismos são permitidos. O público irá discutir os detalhes até montar o quebra-cabeça. Resultado, fica difícil voos mais altos da crítica. Por exemplo, com certo esforço, poderia perguntar: com esse final, que coloca uma humanidade futura como responsável por algo tão divino, e ao mesmo tempo, a humanidade presente tão frágil diante de um planeta destruído, Interestelar estaria ironizando com nosso narcisismo, nossa vontade de tomar o lugar de Deus e conduzir nossas vidas?


Não! Infelizmente, o final não parece acomodar essa visão. Se Nolan conseguiu mexer com sentimentos tão primitivos do espectador, ele não resiste e é exaustivo: foram os humanos que possibilitaram a salvação da humanidade. Se foi a ideia que ele quis passar, tudo bem! Não há problemas em não ser mais simbólico. Embora os filmes mais duradouros costumem serem os mais ambíguos, há grandes filmes redondinhos. Mesmo sendo um ótimo filme – inserindo-se no quadro de renovação da ficção científica cinematográfica – se Nolan dissesse mais falando menos, Interestelar seria maior, o público ganharia e a vida dos críticos seria mais fácil!

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