Westworld chegou à HBO com uma força descomunal e, em poucas semanas, tornou-se uma das grandes séries da emissora por suas múltiplas mensagens reflexivas sobre o conceito da vida e por personagens eximiamente bem escritos. Entretanto, todos nós já ouvimos a famosa frase “quanto maior a subida, maior a queda” e suas múltiplas variações – e isso aconteceu à produção na terceira iteração, frustrando os fãs que esperavam uma profundidade conhecida e foram “presenteados” com repetições excessivas e fórmulas constantes que não fizeram nenhum sentido. Agora, dois anos depois do último season finale, estamos de volta ao distópico mundo re-arquitetado e remodelado por Jonathan Nolan e Lisa Joy – e, para a alegria dos espectadores, o show retorna a passos curtos à forma e aposta suas fichas em uma reestruturação considerável, sem abandonar a familiar identidade.

De certa forma, Westworld passou por um cauteloso processo de se reencontrar (motivo pela demora supracitada) – o que não é um problema quando tem-se um resultado sólido. Os episódios iniciais do novo ciclo conseguem promover um ressurgimento dos elementos pelos quais nos apaixonamos num passado não muito longínquo e, ainda que causem frustração palpável pela ansiedade narrativa e pela abertura de múltiplas tramas, usam e abusam do poder das personas e de um elenco estelar para uma espécie de reboot-continuação cujas respostas devem aparecer em breve (ou assim esperamos, se Nolan e Joy indicaram alguma coisa com o material promocional).


A primeira trama a ser respondida reside em Dolores (Evan Rachel Wood), que, para aqueles que não se recordam, teve suas memórias apagadas e, ao que tudo indicava, havia morrido. Mas não foi o caso: na verdade, Wood retornou como outra hospedeira, agora conhecida como Christina. Na realidade que se abre ao público, ela trabalha em uma corporação high-tech que cria histórias para jogos, dividindo apartamento com a belíssima Maya (interpretada pela vencedora do Oscar Ariana DeBose) e alheia aos problemas que a cercam. Isso é, com exceção de um stalker que continua a ligar para ela, dizendo exasperado que ele perdeu tudo o que tinha na vida por causa de Christina. Aliado a uma trilha sonora clássica do gênero de suspense e com toda a infâmia tétrica de produções similares, compramos a ideia vendida e queremos saber para onde tudo caminha – e de que forma o enredo irá se desenrolar de modo crível e coeso.


A segunda incursão envolve Maeve (Thandiwe Newton) que, sete anos depois dos acontecimentos da temporada predecessora, ainda se esconde de William (Ed Harris) e seus asseclas em um casebre isolado numa comunidade interiorana, mantendo as memórias e os traumas vivos para saber como sobreviver – e isso inclui o contínuo desenvolvimento de suas habilidades tecnopáticas. Quando seu refúgio é ameaçado pela presença dos mercenários de William, ela volta à ativa e reúne-se com Caleb (Aaron Paul), que construiu uma família e que também está sendo ameaçado por inimigos poderosos. Entretanto, de alguma maneira, as coisas voltam-se para a principal ameaça da temporada – que vem na forma da outra Dolores (encarnada por Tessa Thompson) e que representa a máxima do ciclo (inflexões metafísicas que, apesar da timidez, dão as caras em alguns momentos breves).

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Falar da estética da produção é quase desnecessário a esse ponto, mas talvez seja preciso discorrer sobre ela em virtude de compreender a abordagem mais “atemporal”, por assim dizer, dos capítulos. Temos a arquitetura controversa da sobriedade de um escopo futurista, mesclada a um jogo de luz e sombras que puxa elementos do neo-expressionismo e do neo-noir para alimentar a atmosfera misteriosa drenada de cada personagem e cada trama; logo, não espere uma paleta de cores vibrante, e sim um diálogo com a imagética clean dos anos anteriores. Como se não bastasse, o contraste estilístico permite que o conflito entre os hospedeiros robóticos e os seres humanos ganhe uma nova camada – o que tinha, até então, sido deixado de lado.

Claro, há pontos a serem melhorados (o que não vem com surpresando, considerando o teor reciclável a que vínhamos assistindo); mas parece que Westworld finalmente parou de se levar tanto a sério com análises teóricas sobre o significado e o sentido da vida e passou a se divertir com releituras de histórias similares. Somos sempre a favor de uma originalidade construtiva, entretanto, às vezes, respaldar-se nas fórmulas é um bom modo de se reencontra – e é o que a série busca com os episódios. Aqui, o mistério fala mais alto e convence principalmente aqueles apaixonados por descobrir, por conta própria, o desenrolar da narrativa e aguardar por reviravoltas instigantes. O problema, de fato, é criar expectativas que não podem ser cumpridas, e Nolan e Joy deverão trabalhar com esforço e paixão para não deixar isso acontecer.


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