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Crítica | 7ª temporada de ‘Grace and Frankie’ conclui com esmero uma série incrível e necessária


Quando Grace and Frankie chegou ao catálogo da Netflix, ninguém poderia imaginar o estrondoso sucesso que faria – nem sequer a durabilidade que teria. Afinal, o ciclo de estreia não teve uma recepção relativamente boa por parte dos especialistas internacionais, apesar de ter encantado o público. Felizmente, com o passar dos anos, os criadores Marta Kauffman e Howard J. Morris construíram uma belíssima história de amizade, aceitação, empatia e união que transformaria a comédia em um dos títulos mais adorados da gigante do streaming.

A produção não se tornou uma das queridinhas do público por qualquer motivo – e, no topo dessa mixórdia de sentimentos, temos a química inegável e apaixonante de Jane Fonda e Lily Tomlin como as personagens titulares, respectivamente. Outrora inimigas, Grace e Frankie foram arrastadas a um ponto de convergência quando seus maridos revelaram ser gays e as deixaram depois de décadas de casamento, impulsionando-as a deixar tudo para trás e recomeçar em plena terceira idade. Agora, chegando ao ciclo final, nossas adoradas protagonistas nos dão adeus ao longo de dezesseis episódios emocionantes e hilários que entregam exatamente o que esperaríamos de uma obra como esta.



A principal ideia da série sempre foi trazer ao mainstream temas que não são tratados com a naturalidade necessária – como os anseios e as preocupações dos idosos, a mudança repentina de vida, a compreensão de que nunca é tarde para seguir seus sonhos, os desejos sexuais dos mais velhos, os problemas enfrentados por idosos LGBTQIA+ (estes dois temas mostrando uma realidade que não é “bem-vinda” no cenário do entretenimento, em virtude de pensamentos tradicionalistas e retrógrados), a desconstrução da estrutura engessada da família e vários outros. E Kauffman e Morris, navegando entre enredos complexos e que quebram uma retórica estereotipada, permanecem fortes no jogo que constroem e gestam uma das melhores temporadas da série e ótimo final que deixará saudades e que, mesmo com os convencionalismos, é funcional, prática e bem envolvente.

Aqui, as duas amigas começam a se despedir e a enfrentar os últimos obstáculos de sua jornada: Grace parece desestabilizada com a chegada de Nick (Peter Gallagher) à casa de praia, ainda mais depois de ter sido preso por sonegação de impostos. Enquanto Grace se sente presa a um casamento de fachada que já acabou há muito tempo, Frankie também lida com um sentimento controverso que vem à tona todas as vezes que Nick aparece em sua frente, como um lembrete agridoce de que ele quase levou Grace embora para sempre e a arremessou em uma espiral de mentiras e conluios. Mas isso não é tudo: Nick tem um papel importante para que ambas recobrem a importância dos laços que detém entre si, entretanto, é logo deixado de lado para que outros eventos de magnitude exemplar dominem as telas.

Como é de se esperar, Fonda e Tomlin fazem um trabalho magnânimo ao revisitarem as personagens uma última vez, destilando personalidades conflitantes em diálogos frenéticos e extremamente engraçados e dramáticos que culminam em uma última dança de ressentimentos e nostalgia. Grace ainda tenta “recuperar o tempo perdido” e dar continuidade ao Rise-Up, mesmo sem a ajuda de Frankie – que lida com a iminência da morte depois que uma vidente prevê um trágico acontecimento em sua vida e a perda de habilidades motoras que a impedem de fazer o que mais ama (pintar). É nessa conflituosa e instigante linha narrativa que atravessamos um sagaz coming-of-age que se afasta dos costumeiros personagens adolescentes e jovens-adultos e mostra que, até na fase final da vida, lidamos com preocupações e crises existenciais.

É claro que a dinâmica da dupla rouba o centro dos holofotes; todavia, isso não impede que os outros personagens não mereçam conclusões tão dignas quanto. Robert (Martin Sheen) se vê obrigado a deixar a paixão pelo teatro de lado quando enfrenta problemas de memória e percebe que está à beira do abismo do Alzheimer; Sol (Sam Waterston) faz de tudo para ajudá-lo e, aceitando um destino inescapável, se lança em uma missão para criar novas memórias que ajudem ele e seu marido a passarem por uma situação muito difícil; Brianna (June Diane Raphael) perde a única coisa que sempre estimou, o controle, ao se ver numa situação com a irmã e com o noivo e se afundar em um processo de transformação radical; Mallory (Brooklyn Decker) percebe as falcatruas do mundo corporativo ao se tornar alvo de chacota de sua chefe, dando início a uma emblemática batalha consigo mesma; e por aí vamos.

Devo dizer que algumas inflexões promovidas pela iteração final não funcionam como deveriam, mas não têm força o suficiente para apagar a singela e humilde trama que se desenrola bem à frente dos nossos olhos. Há, inclusive, algumas pulsões do além-mundo e do brusco e certeiro fim da jornada humana no mundo terreno, bem como o entendimento da efemeridade da vida – apesar de não ir muito mais longe que a superfície; no final das contas, Grace and Frankie é uma despedida digna que já nos faz querer voltar ao episódio piloto e esquecer de tudo que aconteceu para nos encantarmos mais uma vez com uma das histórias mais honestas da televisão contemporânea.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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