Algumas dores chegam mais cedo na vida e lidar com os fragmentos que ficam como consequência não é uma tarefa muito fácil para uma criança. Já doloroso na vida adulta, o luto é um processo ainda mais delicado nessas fases primárias e a nova animação original da Netflix, A Caminho da Lua, toca precisamente nessa questão. Chegando como essa brilhante e colorida luneta que traz uma nova perspectiva sobre assuntos tão densos, a produção do vencedor do Oscar Glen Keane (Tarzan, Pocahontas) visa trazer cor a um contexto de sofrimento e solidão que tantas vezes pode enraizar tons de cinza tão profundos no seio familiar.

Cheio de alegorias e cores que encantam os olhos pueris, a animação em musical conta com os aspectos mais cativantes exigidos pelo público infantil. Como uma explosão de cores que extravasa por todos os lados, A Caminho da Lua é uma produção cinestésica para a audiência mais novinha, à medida que se consolida como uma experiência profundamente catártica para jovens e adultos. Usando a antiga lenda chinesa da Deusa da Lua como linguagem comunicativa, a produção faz do elemento fantástico uma poesia sobre a vida real, sobre problemas e dores de carne osso.

Em seus primeiros 10 minutos, o longa da Netflix mostra a que veio em toda a sua essência. Contando um conto de ninar para crianças, as roteiristas Audrey Wells e Jennifer Yee McDevitt preparam o público mirim para uma aventura alucinante e guardam o âmago da trama para os mais velhos, ao abordar logo de cara o trágico fim de uma mãe que lutou bravamente contra um câncer, mas infelizmente deixou sua família. Provocando as lágrimas com a sua sensibilidade em falar de temas tão dolorosos, a dupla de mulheres acerta de forma cirúrgica na sua abordagem e cativa os olhos de um público bem amplo, ao trazer para o centro da mesa um dos assuntos mais delicados, que é o luto.



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Mas muito mais do que isso, A Caminho da Lua é também uma grandiosa catarse sobre a busca por identidade, propósito de vida, princípios e fé, ao tratar a história da jovem Fei Fei, que dedica todos os seus esforços a fim de provar que a antiga lenda da Deus da Lua genuinamente existe. Usando esse experimento emocional e científico como um instrumento para lidar com a difícil perda da mãe, o roteiro nos coloca na mesma posição da pequena protagonista, nos levando a uma epifania profundamente reflexiva a respeito das nossas próprias perdas, dificuldades e circunstâncias familiares.

Do mesmo nível de maestria de Divertida Mente (da Disney Pixar), a animação original da Netflix ainda é um banquete alegórico de referências da cultura POP, que servem muito bem à audiência mais atenta e apaixonada por esses pequenos prazeres, que são os famosos easter-eggs. Aqui, a Deusa da Lua vira uma versão metamórfica entre Lady Gaga e o grupo de K-Pop BLACKPINK, com um visual hipnotizante e canções POP que formam uma perfeita combinação de estilos. Além disso, a história do cinema é valorizada com uma serena e doce alusão ao clássico revolucionário de 1902, Viagem à Lua, de Georges Méliès, conforme também homenageia a cultura chinesa em toda a sua riqueza.

Trazendo personagens cativantes e bem explorados, a animação é uma impecável e completa produção cinematográfica, que além de ser bem dirigida, é capaz de conectar públicos dos mais diversos nichos em uma história sobre esperança, perdão e recomeços. Com canções originais que cativam facilmente os ouvidos mais atentos – assim como as próprias crianças, A Caminho da Lua ainda se consagra como uma jornada de autoconhecimento muito particular para a audiência, reservando ao final uma experiência única e revigorante.



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