H.G. Wells é um importante nome da literatura de terror, cujas obras influenciaram e continuam influenciando gerações de romancistas, contistas, cineastas e até mesmo dramaturgos. O escritor britânico foi um dos responsáveis por cimentar o gênero da ficção científica nos vários âmbitos artísticos e sagrou-se como um inovador lendário que deu vida a títulos como ‘O Homem Invisível’, ‘A Ilha do Dr. Moreau’, ‘A Máquina do Tempo’ e inúmeros outros. E, dentre uma gama prolífica de extremo valor, uma de suas incursões mais famosas e prestigiadas é o clássico ‘A Guerra dos Mundos’.
Nome por trás das infinitas narrativas extraterrestres que povoam o imaginário popular, Wells foi homenageado diversas vezes com adaptações de seus escritos, incluindo um drama radiofônico encabeçado por Orson Welles – que causou pânico entre os ouvintes, visto que eles não sabiam que tudo era mera ficção – e uma releitura cinematográfica guiada por Steven Spielberg e estrelada por Tom Cruise. Agora, somos convidados a mais uma recriação dessa atemporal história com ‘A Guerra dos Mundos’, recém-chegado ao catálogo do Prime Video e que traz uma configuração estética diferente das iterações predecessoras.
A trama é centrada em Will Radford (Ice Cube), especialista em vigilância e avaliação de ameaças do Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos. Sofrendo com um trauma profundo que se manteve após a morte da esposa, Will também é um pai superprotetor movido pela necessidade incontrolável de proteger constantemente os filhos, Dave (Henry Hunter Hall) e Faith (Iman Benson), por mais que eles já saibam cuidar de si próprios. Crente de que está fazendo a coisa certa, o especialista em tecnologia vê tudo se desmantelar quando uma estranha chuva de meteoros cai sobre o planeta inteiro, apenas para revelar um ataque em massa de trípodes high-tech alienígenas que desejam alguma coisa.
Não demora muito até que Will, cuja missão anterior incluía encontrar um poderoso hacker conhecido como Disruptor (que havia colocado as mãos em documentos sigilosos do governo), perceba que segredos estão sendo mantidos a sete chaves e que seu chefe, Donald Briggs (Clark Gregg), Diretor do Departamento de Segurança, pode estar conectado com o massacre promovido por extraterrestres poderosos e imparáveis. Munido da ajuda de sua amiga, a Dra. Sandra Salas (Eva Longoria) à medida que é forçado a enfrentar uma dura realidade em relação aos filhos, Will faz de tudo para se tornar um improvável herói e salvar o mundo da extinção iminente.
O revival, como podemos caracterizar o projeto, marca a estreia diretorial de Rich Lee, conhecido por seu trabalho em videoclipes musicais de artistas como Lana Del Rey e Billie Eilish. E, por mais belas que as intenções do cineasta sejam, o resultado é muito aquém do esperado e transforma um projeto que tinha tudo para dar certo em um dos piores longas-metragens da década. Lee não apenas denota sua falta de preparo para comandar uma produção fílmica, como comete deslizes tão amadores que não podemos deixar de imaginar o que teria sido caso o longa tivesse caído nas mãos corretas.
O realizador pega páginas emprestadas de produções como ‘Amizade Desfeita’, ‘Buscando…’ e ‘Host’, filmes de terror e suspense que apresentaram uma nova vertente do found footage ao levar os espectadores para as telas de aparelhos tecnológicos – computadores, tablets, celulares e afins. A estética apresentada em ‘A Guerra dos Mundos’ já nos instiga a querer saber de que maneira o enredo tomará forma, visto que o épico cenário de fundo denota uma expansão imagética. E, enquanto o primeiro ato serve para apresentar os personagens e as subtramas que os unirão, os atos seguintes escalam a uma sucessão de erros crassos e indesculpáveis que se estendem para cada um de seus elementos.
O roteiro assinado por Kenneth A. Golde e Marc Hyman é uma regurgitação sem fim de explicações condescendentes que duvidam da inteligência do público em acompanhar uma trama simplória e batida. Os diálogos sem vida são redundantes e se afogam em uma falsa sensação de sagacidade que não tem consciência da própria estupidez – e que se valem de repetições sem fim e uma imposição mercadológica inexplicável e hilária (por todos os motivos errados). O fato de o elenco estar totalmente desconexo do que se apresenta não ajuda muito: Cube parece congelado em uma expressão ranzinza e exagerada do estereótipo do “paizão”, enquanto Benson e Hall mostram estar cansados demais para ao menos tentar; Longoria, por sua vez, é a única que traz um pouco de ritmo à história ao abraçar Sandra.
Um dos principais problemas do longa emerge por não prestar atenção numa inverossimilhança gritante que aparece tanto nas ocasionalidades irrefreáveis e numa cronologia sem sentido que nem ao menos se vale de recursos óbvios para situar o espectador do que está acontecendo. Os convencionalismos bradam sequência a sequência, tentando resgatar uma gota sequer de originalidade com reviravoltas tão previsíveis quanto seus personagens.
A verdade é que ‘A Guerra dos Mundos’ não justifica sua existência e mais passa a ideia de um grande comercial satírico da Amazon Prime do que um filme. Não há qualquer esforço por parte da equipe criativa e técnica em ao menos construir uma carta de amor a H.G. Wells ou ao sci-fi – e sim um péssimo projeto que não deveria ter recebido sinal verde.
