Crítica | A História Da Eternidade

Poderoso e emocionante

A necessidade de filmar o sertão sempre esteve presente no imaginário dos cineastas brasileiros, o próprio Cinema Novo é hibrido de lá, títulos como Vidas Secas (1963) e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) conquistaram o mundo por sua natural beleza estética e total crueza no que dizem. Árida e castigada, a paisagem contem elementos que transmitem, de forma clara, a realidade ali presente e se torna o cenário perfeito para contar histórias de vários traços dramáticos. E foi desse modo que o pernambucano Camilo Cavalcante fez seu longa de estreia, transportou e correlacionou três poderosos contos para um lugar isolado, um vilarejo isento de lapidação social e vícios de consumo, criando uma relação peculiar de tempo e espaço.

Ao lado do cinematografo Beto Martins, o diretor engendra planos abertos magníficos, não só pelos cenários impressionantes, mas pelo cuidadoso trabalho de mise-en-scène e figurino. Cada frame poderia facilmente ser emoldurado e se tornar um belo mosaico da vida rural. O desenho de som e trilha sonora assinada por Zbigniew Preisner também são fundamentais, pois, além de utilizar a musica do sanfoneiro Dominguinhos para embalar as muitas cenas intimistas e escolher bem as canções incidentais, consegue capturar pequenas ações da vida cotidiana, estabelecendo uma atmosfera bem crível.

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A trama central, mesmo com todo impressionante apelo estético, não fica de lado e é muito emotiva, no melhor sentido da palavra. Possui uma dicotomia sucessiva: é delicada e verdadeira, linda e cruel, sublimemente banal e ao mesmo tempo impactante. A maioria dos personagens são alegorias perfeitas do povo sertanejo. Vemos caricaturas pontuais, como o chefe de família pouco esclarecido que só enxerga a vida concreta, a filha que sonha alto, a matriarca que cuida de todos com sua fé latente e um artista não entendido em meio a tanto sofrimento e ignorância. Um juntado de figuras e contos formando uma fábula que começa deveras tocante, mas no desenvolvimento torna-se curiosa e lá pelo fim do terceiro ato causa impacto total.

Um dos elementos mais importantes de A História Da Eternidade é o cast de atores. Todos, sem exceção, realizam trabalhos excepcionais e conferem uma hiper-realidade quase que documental. A começar pelo personagem de Claudio Jaborandy, o vaqueiro Nataniel, que em vários momentos nos faz esquecer que aquilo é uma ficção por construir um homem bruto e rancoroso, mas que na hora certa se entrega por completo ao drama. A Querência de Marcelia Cartaxo passa por duas fases bem distintas de sofrimento e felicidade, testando assim o potencial da atriz. O sempre ótimo Irandhir Santos é outro que merece destaque e elogia-lo é só redundância. Mesmo não sendo o protagonista, o ator consegue roubar a cena, interpretando um personagem tridimensional e rico em sua essência.

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Falando nisso, Camilo Cavalcante dá ao próprio Irandhir o merecido presente de fazer uma das cenas mais lindas já perpetradas no cinema brasileiro contemporâneo. Quando o seu Joãozinho, vestido por um estranho manto artesanal, pega o primeiro LP do subversivo grupo Secos & Molhados e põe na vitrola a faixa ‘Fala’ – que possui versos como “Se eu não entender, não vou responder, então, eu escuto…”, indicando uma concisa rima narrativa – e a câmera começa a girar em torno dele, enquanto os moradores (seu público) observam com pasmasses, ficamos do outro lado da tela vibrando com a beleza cinematográfica posta em prática. Aliás, o filme em si nos causa essa impressão, já que acerta em todos os pontos aludidos e fascina em vários aspectos, já nascendo assim como um jovem clássico.

Texto originalmente publicado na cobertura do VII Janela Internacional de Cinema do Recife.

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