Declaração Antimilitarismo

Poucos diretores atuais possuem um currículo tão diversificado quanto o cineasta Richard Linklater. Na filmografia do americano constam obras cultuadas (a trilogia do Antes, com Ethan Hawke e Julie Delpy), sucessos de bilheteria (Escola de Rock) e filmes prestigiados (Boyhood: Da Infância à Juventude). Uma coisa, porém, une todos os seus trabalhos: o olhar sincero e a extrema humanização de suas histórias e personagens.

Justamente por isso, pode causar certa estranheza aos fãs do diretor a escolha de seu mais recente projeto, a adaptação do livro de Darryl Ponicsan (que assina o roteiro ao lado do cineasta), e a opção por contar esta história utilizando elementos do melodrama televisivo. Mas não me entenda mal. Não é como se um diretor tarimbado como Linklater não dominasse este terreno também, e o resultado é bem satisfatório.

Um detalhe curioso é que o livro de Ponicsan é continuação de The Last Detail, também escrito por ele, que virou filme em 1973, intitulado A Última Missão, dirigido por Hal Ashby e protagonizado por Jack Nicholson. O que de certa forma faz de A Melhor Escolha uma continuação espiritual do filme citado – só espiritual mesmo, já que Linklater (que tenta adaptar o livro desde 2006) fez questão de alterar os nomes dos personagens para se desassociar da produção de Ashby.

A trama, fortemente envolta na forma de crítica ao militarismo norte-americano, apresenta três amigos veteranos reformados se reencontrando após décadas do término de seu serviço. Para o trio, Linklater convocou um time de peso, que conta com nomes como Bryan Cranston (indicado ao Oscar por Trumbo – Lista Negra), Steve Carell (indicado ao Oscar por Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo) e Laurence Fishburne (indicado ao Oscar por Tina). O nível de intimidade e a química ideal só seriam atingidos com atores deste porte, que correspondem entregando exímias atuações. Este é um dos pontos altos do longa.

Aqui, é o sempre ótimo Cranston (redescoberto após a série sensação Breaking Bad) quem se destaca na pele do beberrão questionador Sal Nealon. Steve Carell entrega um desempenho contido e introvertido na pele do sofredor Doc Shepherd; e Fishburne é a alma que une tudo, na pele do ex-soldado convertido em reverendo, Mueller. Desta dinâmica de personalidades bem opostas e conflitantes surge a grande força de A Melhor Escolha. Vem da interação destes personagens forçados a conviver por um bem maior – o trio parte para enterrar o filho de Doc, um militar morto em combate – o coração do filme e seu diferencial, aonde também sentimos a assinatura do diretor.

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É interessante o paralelo traçado aqui, da inversão de valores. Esses velhos companheiros criaram um laço único enquanto serviam juntos, que dura décadas e provavelmente será para a vida toda. Ao mesmo tempo, se veem cada vez mais desgostosos com a instituição que os uniu, culpando-a por seu estado atual, e retendo apenas mágoas e lembranças ruins da época em que lá estiveram na juventude. A gota d´água é a morte do filho de Doc, e a forma como tal situação é tratada – a cena em que o trio chega para retirar o corpo das forças armadas é o ápice de tal sentimento.

Linklater mescla bem gêneros em suas produções, e em A Melhor Escolha aposta num tom mais leve em sua crítica. É inegável e impossível deixar passar a mensagem proposta pelo cineasta, a do antimilitarismo. Podemos inclusive dizer que esta é a versão mais descompromissada e doce do diretor para Nascido em 4 de Julho (1989), de Oliver Stone. Em seu cerne de aftermath (as consequências), o filme de Linklater vai na contramão de ideias como Guerra ao Terror (2009), de Kathryn Bigelow, e Sniper Americano (2014), de Clint Eastwood – mesmo que ambos também optem pela crítica em algum nível, despercebido pela maioria.  A Melhor Escolha é mais direto e óbvio.

Nos trechos no qual tenta usar seu discurso de forma sóbria, o longa soa datado, sem a relevância e urgência certamente planejadas. Em momentos dramáticos, citados no início do texto, Linklater recai ao melodrama, sobressaindo pouco àquele folhetim diário, e caprichando no teor açucarado. Como dito, A Melhor Escolha se sai bem quando opta pelo humor, quando decide não se levar totalmente a sério – mesmo sendo capaz de transparecer seu recado ainda assim – apostando na sinceridade da interação de seus protagonistas, fortalecida por seus intérpretes encorpados.

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