Toda vez que conhecemos uma nova pessoa, é uma página em branco a ser completada. Mesmo quando alguém a apresenta ou a conhecemos dentro de um contexto, é com a conversa, com o tempo, com as experiências compartilhadas que vamos entendendo e conhecendo uma pessoa, ao ponto de, eventualmente, emitirmos uma opinião sobre ela e decidirmos se a queremos em nossas vidas ou não. Agora, imagine conhecer alguém cujo passado é um mistério completo, envolto no mais profundo desconhecido? Esse é o ponto de partida do suspense dinamarquês ‘A Mulher Secreta’, que atualmente figura entre os mais vistos do Top 10 da Netflix.

Louise (Natalie Wolfsberg Madueño) vive feliz numa ilha de poucos habitantes no território da Noruega, onde gerencia um café amistoso junto com seu noivo, Joachim (Pål Sverre Hagen). Um dia, um estranho chega no café e a chama por outro nome: Helene. Isso a inquieta, afinal, Louise não lembra nada de seu passado, embora esteja na ilha há dois anos. Incomodada, ela decide dar uma pausa na sua vida atual para finalmente encarar o mistério de seu passado, e acaba descobrindo não só que era casada já, mas que também tem um filho, e na Dinamarca. Com sua vida revirada de ponta-cabeça, Helene agora precisa entender o que aconteceu para um dia ela aparecer desacordada em uma balsa.
Com uma proposta de mistério cheio de reviravoltas, ‘A Mulher Secreta’ é um filme que prende a atenção e entrega a proposta exatamente como a esperamos. Ainda que com uns personagens bem demarcados em suas características (o vilão é bem vilãozão, o mocinho é o extremo oposto inclusive fisicamente), suas personalidades são bem trabalhadas e ganham camadas que vão se apresentando ao espectador ao avançar da trama.
E tudo isso, claro, com alguns cenários paradisíacos, afinal, estamos falando da parte nórdica do planeta, cercada pelos clássicos fiordes e luz do sol hiper saturada. E, como aprendemos com histórias como ‘Os Homens Que Não Amavam as Mulheres’, os nórdicos sabem elaborar boas histórias de suspense.

O roteiro de Anders Frithiof August, Barbara TopsØe-Rothenborg e Anna Ekberg trabalha bem toda a construção do drama confuso da protagonista, que busca o quebra-cabeças da própria vida enquanto nós, expectadores, vamos igualmente juntando os pontos nessa história que, aos poucos, vai desenhando exatamente quem é quem na trama. Porém, é quando a coisa toda vai se justificar que acaba indo para um lugar mais sombrio, mais pesado, que acaba não sendo muito trabalhado no total da história, deixando mais uma sensação de desvio de enredo do que de satisfação com o encerramento.
Barbara TopsØe-Rothenborg consegue um bom trabalho com seu elenco, ainda que aqui e ali os personagens masculinos carreguem no carão; mas é a protagonista, Louise/Helene, que conduz todo o drama se mantendo impassível até o momento em que a ficha finalmente cai para ela; até lá, ela segura suas emoções num misto de confusão e disfarce, sinalizando o bom desempenho de Natalie Wolfsberg Madueño no protagonismo.
Em duas horas, ‘A Mulher Secreta’ entrega uma boa história, bem elaborada e bem encenada, que ainda encontra espaço para evidenciar a vulnerabilidade da mulher em casamentos cujos enredos são traçados em acordos pré-nupciais. Para quem busca um suspense que prende a atenção sem exigir tanto cálculo, é uma boa pedida de entretenimento em casa aos assinantes da Netflix.


