Crítica | ‘Chad Powers: O Quarterback’ retorna em 2ª temporada ELETRIZANTE

Lançada em 2025, a série Chad Powers: O Quarterback chegou ao Disney+ como um tipo de Hannah Montana do meio esportivo, mas com um diferencial: seu protagonista não era exatamente um herói. Na verdade, ele era um atleta odiado no país inteiro que buscava uma redenção, mesmo que isso significasse colocar muitas pessoas em risco. E essa proposta muito original acabou conquistando o público.

A trama acompanha o astro Russ Holliday (Glen Powell), um prodígio do futebol americano universitário que tinha uma carreira brilhante pela frente. Dono de um estilo de jogo inteligente e agressivo, o quarterback tinha um pé na liga profissional, quando colocou tudo a perder após ser diretamente responsável pelo vice-campeonato de sua equipe. Para piorar, ele ainda agrediu o pai de uma criança em estado terminal, o que destruiu sua imagem para os torcedores e para a imprensa esportiva. Com isso, sua carreira foi por água abaixo. Então, tentando recuperar o sentido de sua vida, que é jogar futebol, ele embarca em uma ideia absurda de usar peruca e maquiagem para se passar por Chad Powers, um caipira esquisitão que aplica para a vaga de quarterback dos Bagres, o péssimo time universitário de South Georgia. Porém, para a surpresa do rapaz, o plano dá certo e ele lidera a equipe a uma arrancada histórica no campeonato. Mas tem um problema: uma hora sua verdadeira identidade virá à tona, o que poderá destruir completamente as vitórias do time, já que a equipe seria enquadrada por apoiar um caso de falsidade ideológica e muitas outras questões legais.

Ao fim da primeira temporada, o segredo de Russ foi descoberto pela treinadora auxiliar Ricky (Perry Mattfeld), que precisou escolher entre revelar a farsa ao mundo ou manter vivo o sonho de seu pai, o treinador Hudson (Steve Zahn). Nesta segunda temporada, que chegou completinha ao Disney+ nesta quinta (3), o público vai acompanhar as consequências da escolha de Ricky e como a mente de Russ entra em parafuso, por conta de uma grave crise de identidade. Afinal, quem ele realmente é? O desprezível Russ Holliday ou o querido Chad Powers? E esse é o grande mérito desse novo ano.

Glen Powell está simplesmente espetacular, ostentando um timing cômico inigualável, mas também expressando uma carga dramática muito natural para um personagem que está completamente quebrado. Ele só quer ser amado, mas sabe que seu plano está machucando pessoas queridas, além de colocar a vida das poucas pessoas que ele ama em risco. Mais do que isso, Russ é tomado por um sentimento de culpa, dadas as consequências de suas ações na temporada anterior. É um personagem realmente fascinante, porque ele trabalha do jeito certo, ele tem talento, ele tem proatividade, só que tudo isso foi construído em cima de uma farsa. Então, quando parece que as coisas enfim vão começar a dar certo para ele, o rapaz consegue fazer alguma burrada inacreditável que põe tudo a perder. Ele é aquele tipo de personagem que está em um espectro mais próximo de ser vilão, mas que ainda assim consegue fazer com que você torça para que ele se dê bem. E sustentar um papel assim não é nada fácil.

Russ Holliday vive uma grave crise de identidade na segunda temporada de ‘Chad Powers: O Quarterback’. Divulgação/ Disney+

E esse arco dramático é estendido a todos os outros personagens da trama, muito por conta de um personagem comum a todos: o treinador Hudson. Não é exagero dizer que o personagem de Steve Zahn é o coração da segunda temporada, porque ele está literalmente dando a vida pelo campeonato. Recuperado do infarto sofrido no final da primeira temporada, o treinador volta aos poucos a comandar o time, mas sabe que não é a situação ideal, já que deve evitar fortes emoções. Só que ele deixa claro para a filha e para seus jogadores que precisa desse título para sentir que fez algo positivo em sua vida. Mesmo que isso custe a ele sua própria vida.

Esse personagem funciona como um motorzinho para a trama, porque ele mantém um segredo muito sério, enquanto busca a sinceridade de seus atletas e parentes. Ao mesmo tempo, as pessoas mais importantes de sua vida também estão escondendo dele segredos cabulosos. Chad mente sua identidade, enquanto Rick encobre o plano de Russ, mesmo sabendo que foi uma traição dele que ocasionou o infarto do próprio pai na temporada anterior. Só que eles põem na balança que Hudson já perdeu coisas demais nesses últimos meses. Perder a chance de se eternizar na galeria de campeões do esporte seria um baque muito duro para ele. E esse ciclo vicioso de mentiras e farsas cria uma relação surreal entre o treinador e Chad. Mesmo mentindo quem ele é, Russ consegue se abrir e exprimir dramas reais em uma relação de confiança com Hudson. Conforme técnico e jogador vão se entendendo, a máscara de Chad Powers vai se fundindo ao rosto de Russ Holliday, que já não sabe mais quem é. Ele só sabe que quer vencer.

O treinador Hudson (Steve Zahn) volta aos campos com um segredo mortal, mas ele está disposto a dar sua vida pelo campeonato. Divulgação/ Disney+.

Paralelamente, a segunda temporada adota uma vibe de true crime ao construir um vilão improvável, mas igualmente assustador e engraçado. O quarterback reserva do time, Gerry (Colton Ryan), suspeita de Chad Powers e acredita que o jogador é um enviado do demônio para destruir sua vida. Excêntrico e cego por seu fanatismo religioso, Gerry começa uma investigação própria, perseguindo Chad e Ricky para tentar descobrir o que o craque que roubou sua vaga no time esconde. O trabalho de Colton também é sensacional, porque ele leva às telas uma grande apatia para o personagem, que remonta a grandes psicopatas do cinema. O garoto está disposto a tudo – menos jogar bem – para provar que merece estar no time. Ele é um injustiçado que decide fazer justiça com as próprias mãos.

E o mais genial dessa temporada é que, em 90% do tempo, Gerry está correto em suas reivindicações, mas ainda assim ele é o antagonista da temporada. Porque, veja bem, por pior jogador que ele fosse, ele realmente perdeu a vaga após Danny (Frankie A. Rodriguez) lesioná-lo propositalmente na primeira temporada. Todas as vezes que Chad se ausentava do time, o que abriria oportunidades para o rapaz jogar, Powers ressurgia de última hora, relegando o garoto ao fracasso. E, no fim das contas, Russ está colocando em risco a carreira de todos os envolvidos com os Bagres, já que ele está fraudando sua identidade para jogar. Ainda assim, Gerry consegue sair como o errado da história. Existe um sabor em torcer pelo vilão, é verdade, mas Chad Powers vai além e te faz detestar aquele que seria um herói tradicional. É uma produção que mostra que nenhuma pessoa é simples. Nada aqui é “preto no branco”. O brilhantismo reside nessas zonas cinzentas que questionam a moral e a ética de todos os envolvidos.

Mesmo tendo características de um tradicional herói dos filmes esportivos americanos, o quarterback Gerry (Colton Ryan) é o vilão da 2ª temporada de Chad Powers. Divulgação/ Disney+

E isso reflete no próprio ambiente do futebol americano colegial. A segunda temporada reserva um espaço especial para a CEO do time, Tricia (Wynn Everett), que joga luz em um tema muito interessante do esporte: os bastidores das negociações. A personagem é hilária e não tem escrúpulos. Ela é uma dirigente à la Eurico Miranda, que lança bravatas, negocia com empresários, conhece muito bem as regras e leis do esporte e entende o quanto sua posição de personalidade influente da cidade pode isentá-la de certas situações. Nesta temporada, ela se destaca ao mostrar que ela é A Girlboss da parada, e que mesmo se tratando de pessoas queridas no time, aquilo ali ainda é um negócio milionário comandado por ela. E isso significa tomar decisões que podem chatear e destruir relações com pessoas queridas.

O curioso é que o público vai a funda nas relações de Tricia, descobrindo seu jeitão excêntrico, que se coloca acima do bem e do mal, e ainda assim tudo isso só deixa a personagem mais interessante. Sem contar que a temporada faz um espelhamento divertidíssimo dela com Danny, já que ambos compartilham essa visão empresarial predatória de fazerem qualquer coisa para obterem sucesso. Rende momentos hilários e deixa um gancho muito promissor para uma futura terceira temporada.

Tricia (Wynn Everett) ganha destaque na 2ª temporada ao mostrar os bastidores da gestão esportiva. Divulgação/ Disney+.

No fim das contas, mesmo construindo uma trama mais dramática, a segunda temporada de Chad Powers consegue manter aquele humor afiado da primeira temporada, enquanto transita por diferentes gêneros cinematográficos para criar uma história eletrizante que se divide entre as questões dos personagens e seus dilemas éticos, e também pela trajetória do time no campeonato. Porque, sim, é um universo tão bem construído que o público acaba se apegando aos Bagres e a sua temporada dos sonhos.

Você quer que o Chad vá bem, e torce para que os Bagres cheguem à tão sonhada final. É um trabalho tão competente que faz com que os fãs vibrem com as vitórias e se incomodem com o sabor amargo das derrotas do time de futebol americano universitário. Chad Powers: O Quarterback é realmente uma grande surpresa do Hulu/ Disney+, que conseguiu ficar ainda melhor em sua segunda temporada, já criando um enorme hype para sua terceira temporada.

Todos os episódios de Chad Powers: O Quarterback estão disponíveis no Disney+.

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Pedro Sobreiro
Pedro Sobreirohttps://cinepop.com.br/
Jornalista apaixonado por entretenimento, com passagens por sites, revistas e emissoras como repórter, crítico e produtor.