Crítica | A Noite do Jogo – Hilária comédia para maiores com Jason Bateman e Rachel McAdams



O humor que faz falta

A comédia é o gênero mais subestimado do cinema – ao menos pelos cinéfilos sérios. Este é também o gênero mais difícil para os realizadores. No fim do dia, este tipo de filme resume-se a uma única verdade: ou é engraçado ou não. E A Noite do Jogo, nova produção da Warner que chega este final de semana aos cinemas brasileiros, pode dizer que tem risadas de sobra a serem arrancadas da plateia.

À primeira vista podendo ser tratado como mais uma comédia escrachada e descartável, tudo em A Noite do Jogo surpreende. Como, por exemplo, o roteiro esperto e recheado de tiradas por minuto, que nos desafia a pegar todas, escrito por Mark Perez. Também temos a direção da dupla Jonathan Goldstein e John Francis Daley (roteiristas de Homem-Aranha: De Volta ao Lar), a qual voltaremos a falar em breve.

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A história apresenta Max (Jason Bateman) e Annie (Rachel McAdams), dois indivíduos extremamente competitivos, que resolvem jogar no mesmo time ao invés de medir forças. Assim, explode a paixão e anos depois eles estão casados. O estilo de vida da classe média alta norte-americana é um dos personagens, e o casal protagonista tem como hobby a famosa noite do título, na qual uma vez por semana se reúnem com um grupo de amigos para se divertir, comer e beber.

Ao mesmo tempo em que precisam despistar o vizinho policial sinistro (papel de Jesse Plemons – uma das melhores coisas do longa), com quem não querem mais contato, a chegada do irmão do protagonista, papel de Kyle Chandler, começa a girar a trama por caminhos inusitados. Brooks (Chandler) é um ególatra exibicionista, que adora esfregar na cara do irmão como sua vida é dez vezes melhor. Neste caminho, o sujeito resolve apresentar ao grupo de amigos um novo nível para a noite do jogo. Reunidos em sua mansão, eles precisam decifrar pistas de um sequestro – tudo encenado por uma empresa especializada neste tipo de farsa (quem assistiu ao suspense Vidas em Jogo, com Michael Douglas, dirigido por David Fincher, imagina mais ou menos como funciona).

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Para não estragar muito da experiência de vocês leitores, basta dizer que o roteiro leva por lugares inimagináveis, acrescentando muito suspense e tensão ao que deveria ser uma típica noite tranquila nos subúrbios pacatos dos EUA. A Noite do Jogo é um verdadeiro achado e sem dúvida a comédia do ano. Faz rir como há muito não víamos. É histérico e frenético, não pisando no freio em momento algum. Sabe quando nos referimos a filmes de ação que não dão descanso, pois bem, transfira para gargalhadas.

Mais uma vez é preciso dar crédito ao texto de Perez, que não apenas cria uma história atrativa e identificável, personagens cativantes, mas também acrescenta tantos detalhes nas entrelinhas que faz o filme transbordar em referências da cultura pop. O humor acerta na maioria das vezes, e a história ainda guarda espaço para momentos tensos e intrigantes, que nos deixam à beira da poltrona vidrados em seguir aonde tudo vai chegar. A direção é outro chamariz. Daley e Goldstein não apenas demonstram ótimo timing para sacadas e piadas, como também exibem esforço extra ao criarem cenas elaboradas e criativas, como quando os personagens correm pela casa, jogando um acidental “bobinho” com um objeto raro enquanto fogem de seguranças. A cena é projetada para dar a impressão de uma sequência só sem cortes.

Vislumbramos também planos onde os diretores filmam os personagens dentro do carro reagindo ao exterior, ou qualquer outra tomada de ação intencional. A arte por trás da confecção impressiona, justamente por ser o algo mais que nós avaliadores sempre pedimos. Eles entregam. Fora isso, temos desempenhos motivados de todos os atores, que embarcam nessa de forma comprometida, transparecendo estar em uma produção séria e voltada a prêmios. Rachel McAdams há muito não era vista de forma tão leve e divertida – a atriz realmente pode fazer de tudo. Jason Bateman, atuando como produtor também, demonstra toda sua afinação e especialidade para o gênero. E Plemons, como citado, sobressai como o melhor personagem, o vizinho creepy que causa calafrios de risadas nervosas.

A Noite do Jogo acerta em todas as notas, criando uma montanha russa de emoção e humor. O descompromisso que exala em relação a qualquer tema importante, a não ser o puro escapismo, é refrescante nos tempos de hoje, onde vivemos entre os extremos de blockbusters de franquias repetitivas (o que inclui gêneros e subgêneros) ou a exaustão sentimental de produções sociais, psicológicas ou comportamentais. A Noite do Jogo nos lembra o quanto é bom ir ao cinema se divertir, esquecer dos problemas e que estar diante de entretenimento adulto, sem monstros, dinossauros ou super-heróis também pode ser incrivelmente satisfatório.

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