Pelo comichar em meus polegares, algo nefasto vem por este caminho.

Estas são as duas sentenças que conseguem resumir a pungência da clássica peça A Tragédia de Macbeth, do autor inglês William Shakespeare. A história, ambientada na Escócia do final do século XV e começo do século XVI, giram em torno do personagem titular, um ardiloso rei sem quaisquer escrúpulos cuja desmedida ambição prenuncia sua ruína. Outrora fiel àqueles que o cercavam, Macbeth se une com sua esposa, tão condenável quanto ele, para tirá-los de seu caminho e ascender ao trono – coletando inúmeros inimigos que proclamam vingança contra seu tirânico e sanguinolento reino de caos.

Adaptar peças de Shakespeare para a televisão ou para o cinema não é um trabalho fácil – e, a não ser que você tenha pleno conhecimento de como uma obra do dramaturgo funcione (como Kenneth Branagh e suas dúzias de releituras fílmicas), cair na monotonia e nas fórmulas do gênero dramático é praticamente certeiro. Não podemos nos esquecer, por exemplo, do conturbado épico Macbeth: Ambição & Guerra’, de Justin Kurzel, que não fez jus aos incríveis personagens – motivo pelo qual confesso que fiquei com pé atrás para a versão de Joel Coen. Felizmente, o longa-metragem, que chegou hoje ao catálogo do Apple TV+, superou todas as expectativas e se tornou não apenas uma das melhores traduções shakespearianas, mas também uma das melhores produções dos últimos dez anos (e uma ótima estreia solo de Coen na direção).



A concepção do projeto já é de causar interesse em qualquer um que olhe a ficha técnica do filme; afinal, temos Denzel Washington interpretando o protagonista-título, e Frances McDormand vivendo Lady Macbeth – ambos se fundindo em um ciclo voraz de ganância que os leva em um caminho bastante diferente do que esperavam. Em uma de suas andanças após sair vitorioso de uma impactante batalha, Macbeth cruza caminho com as Irmãs Estranhas, três bruxas proféticas (vividas por uma rendição irretocável de Kathryn Hunter) que anteveem sua ascensão ao poder e que nada o tirará do trono – com exceção de uma confusa metáfora que não fica clara logo de cara. Envolto com soberba, Macbeth, que não se contenta com o papel que lhe foi dado na nobreza e no círculo militar, mata o Rei Duncan (Brendan Gleeson) e espanta os herdeiros de sangue para tomar a coroa para si e dar início a uma temível governança regada a medo e a sordidez.

Cada elemento do longa-metragem é pensado com cautela extrema – feito que o deixa ainda mais espetacular do que é. Joel, que emprestou suas habilidades a produções de grande calibre ao lado do irmão, Ethan Coen, como ‘Fargo’, ‘Bravura Indômita’ e ‘The Ballad of Buster Scruggs’. Livrar-se das amarras serviu como um respiro para que Joel pudesse promover sua própria estética – e o fez da melhor maneira possível, realizando um contorcionismo imagético de tirar o fôlego e que, ao mesmo tempo, emulou inúmeras referências da história do cinema e gestou um belíssimo e atemporal conto epopeico.

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Falar que Washington e McDormand estão ótimos é não conseguir exprimir a mágica que criam em tela: a dupla, quando em conjunto, quando separada, comanda as cenas sem perder a essência dos personagens e sem deixar que qualquer detalhe escape às mãos. Ambos os veteranos sabem que têm muito mais a ser entregue no tocante à arte que juraram defender, e eternizaram a si mesmos dentro de dois arquétipos que são utilizados como referência até os dias de hoje. Eles colocam em xeque, guiados pela presença de outras personas, como Macduff (Corey Hawkins), Banquo (Bertie Carvel) e Malcolm (Harry Melling), o maniqueísmo que se impõe sobre a figura real: Macbeth não é um rei benevolente, assim como Lady Macbeth não é uma rainha confiável. Eles chegaram aonde estão desvencilhando-se da necessidade de seus aliados e quebrando o caráter moral que outrora defendiam, transformando-os naquilo que traria sua ruína.



A estética do filme também foge do convencional e aposta fichas em uma teatralidade fantástica. Todos os cenários foram transportados para palcos e encobertos em uma névoa macabra que retira o peso de época da peça original e presta homenagem aos títulos do expressionismo alemão, principalmente à carreira de Fritz Lang. Coen se alia ao diretor de fotografia Bruno Delbonnel (‘O Destino de uma Nação’) e abusa de uma perspectiva longa que transmuta as sequências em um labirinto de emoções, refletindo um apreço pelo suspense psicológico; o jogo de luz e sombra é constante e levado às expressões dos protagonistas e coadjuvantes para criar ambiguidade em suas atitudes – como a personalidade complexa de Macbeth ou a queda à loucura de Lady Macbeth. E, no topo de tudo isso, temos a evocativa trilha sonora de Carter Burwell, que aparece nos momentos certos sem ao menos tangenciar o pedantismo emocional.

A Tragédia de Macbeth já se consagrou como um dos melhores filmes do ano – e acho muito difícil que alguma produção consiga superar o que foi construído. Aqui, todas as engrenagens funcionam em um organismo completo, servindo de apoio umas às outras para garantir que William Shakespeare seja honrado da maneira mais sólida e estonteante possível.

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