Crítica | A Vida Invisível – Tocante relato sobre a força da mulher e a luta contra o patriarcado

Crítica | A Vida Invisível – Tocante relato sobre a força da mulher e a luta contra o patriarcado

Nota:


Filme Assistido durante a cobertura do Cine Ceará 2019

Cultuado diretor responsável por obras como Madame Satã (2002), O Céu de Suely (2006) e Praia do Futuro (2014), Karim Aïnouz construiu sua carreira de quase 20 anos sempre focando em personagens complexos e histórias intimistas, que muitas vezes possuem como pano de fundo temáticas abrangentes e ousadas. Ele repete a dose com seu novo trabalho, A Vida Invisível, vencedor do prêmio de Melhor Filme da Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes e escolhido o representante brasileiro na corrida pelo Oscar 2020 de Melhor Filme Internacional.

O filme segue a história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) e Guida (Julia Stockler), filhas de uma família tradicional de portugueses no final dos anos 40 e início dos 50. Eurídice é introvertida e sonha em ser uma pianista de sucesso, enquanto Guida é apaixonada e espontânea, enfrentando as convenções sociais da época. Após ver a irmã fugir de casa com o namorado, Eurídice sofre com a separação e o fardo de ter que ser a filha perfeita, deixando os sonhos de lado para formar uma família mais convencional.

“A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida.” A clássica frase de Vinícius de Moraes poderia estar marcada a ferro e fogo no cartaz de A Vida Invisível. É uma obra sobre um grande desencontro entre essas duas irmãs que se amavam. Mas também sobre novos encontros. Eventualmente, encontros falsos que preenchem vazios. Adaptação do livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão“, o filme chegou a ter o mesmo nome da obra original antes de cortar a menção direta à personagem. Neste caso, há de se valorizar o fato de que o nome reduzido faz mais sentido diante da versão cinematográfica. Não é a história de Eurídice. Ela não é a única personagem apagada pela vida e pelo patriarcado que corrompia (e corrompe) a sociedade à época. É um filme sobre Eurídice e Guida, e qualquer coisa diferente disso joga contra a narrativa dessas mulheres.

Aïnouz sempre valorizou personagens femininas em suas histórias, mas dessa vez foi além e se cercou de mulheres na equipe técnica, com destaque para a diretora de fotografia Hélène Louvart, a montadora Heike Parplies e a profissional do som Laura Zimmerman. Com relação à fotografia, a parceria entre Karim e Louvart é realmente fascinante. Mesmo filmado no digital, o longa possui uma textura de película, com cores fortes e cenas com variações de granulação. Com relação às cores, é impressionante o uso do verde e do vermelho e a variação entre a cor viva e o tom mais esvaziado, muitas vezes acompanhando o momento das vidas das personagens. O posicionamento da câmera e os ângulos também chamam atenção, seja pelo uso constante de planos fechados não apenas nas reações, mas em objetos de cena ou partes de corpos.

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Um dos principais méritos do diretor, que co-escreveu o roteiro com Murilo Hauser e Inés Bortagaray, foi abraçar o gênero do melodrama para contar a sua história, sem cair necessariamente no exagero, mas também sem o medo de demonstrar emoção. Para isso, contou com a ajuda fundamental de um elenco inspiradíssimo. Carol Duarte e Julia Stockler se transformam de forma impactante naquelas mulheres, empregando cada pingo de sofrimento e dor. Gregorio Duvivier vive o marido de Eurídice, um homem que é aquele misto de tímido e banana, mas que não deixa de ser violento. E aí não falamos de uma violência necessariamente física, mas daquela que não se preocupa em proteger ou incentivar os sonhos da pessoa que está ao seu lado. Destaque ainda para Bárbara Santos, ícone do teatro que faz sua estreia nos cinemas como Filomena, uma mulher forte que surge como uma espécie de segunda mãe para Guida.

Estamos diante de um filme sobre ausência, em que o que mais marca é a presença sentimental que uma irmã tem sobre a outra mesmo diante da distância e da falta de contato. Para fechar o elenco, temos ninguém menos que Fernanda Montenegro na pele de Eurídice quando idosa. Trata-se de uma atuação breve, mas completamente avassaladora. Fosse esse um filme americano, cinco minutos seriam o bastante para a atriz receber um Oscar de coadjuvante. Fernanda é tão sutil e tão complexa que arrebata o público, que se emociona bastante ao final da sessão.

Ainda sobre a valorização da mulher, é interessante notar que Karim não se preocupa em inserir os homens como vilões. É como se a vilã fosse a vida e aqueles personagens agentes para dificultar a ascensão daquelas mulheres. É curiosa ainda a forma como o cineasta usa o sexo para contar a história. São várias as cenas de sexo. E todas são nada cinematográficas. Não há beleza, há naturalidade e, por vezes, brutalidade. É uma forma de transmitir a falta de conforto permanente de Guida e Eurídice. Em um momento em que muita gente confunde sexo com pornografia, é importante notar como tais cenas são fundamentais para contar a narrativa das duas.

A Vida Invisível é uma obra sobre viver nas sombras, sobre famílias partidas, sobre formar novos laços. Ao final, um tradicional fado português acompanha os créditos. Fado que também pode ser traduzido como “destino”. E o longa também é sobre isso, sobre se sentir presa em uma obrigação e objetivo de vida. Uma obra essencial no Brasil de 2019.



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