Seguir os passos de Songs in A Minor seria um trabalho bastante complicado – mas não para Alicia Keys. Depois de seu estrondoso début com um dos melhores álbuns da década de 2000, a cantora e compositora estava pronta para mergulhar em uma nova aventura, dessa vez adotando um tom mais confessional do que suas investidas anteriores, encontrando sucesso em explorações à la soup-chicken-for-the-soul. As declamações, outrora restritas a relacionamento românticos, amadureceram para reflexivos versos sobre a vida e sobre aqueles que se vão – além de, mais uma vez, abrir portas para o crescimento do neo-soul como um gênero mainstream. Foi a partir daí que surgiu um de seus álbuns mais famosos, o memorável ‘The Diary of Alicia Keys.

Levando a sintaxe do título à risca, Keys transformou uma longa jornada fonográfica, composta por quinze músicas e quase uma hora de duração, em um diário bastante pessoal e íntimo, fruto de suas experiências de um assertivo crescimento em meio a traumas e a eventos infelizes – incluindo a morte precoce de Aaliyah, que veio a influenciar a composição da faixa mais conhecida do CD, “If I Ain’t Got You”. Talvez o único problema, por falta de outro termo, provenha da necessidade de manter uma narrativa já contada em voga, criando uma espécie de continuidade em relação à obra de estreia e, por essa razão, esquecendo-se de investir em construções originais. Não se enganem: as faixas insurgem do âmago de uma performer que merece ser ouvida e, por essa razão, são poderosas do começo ao fim – mas é inegável sentir uma consonância tremenda com o que já havia nos apresentado dois anos antes.

A própria estrutura do álbum é dotada de semelhanças com ‘A Minor’: a primeira faixa demonstra, mais uma vez, a habilidade de Keys com o piano, construindo uma breve e mística introdução que mistura elementos orquestrais com a revitalização do R&B e dos impactantes beatdrops, dando as cartas do jogo que serão mostradas mais tarde. “Harlem’s Nocturne” faz uma ode à vida boêmia e misteriosa de um dos bairros mais conhecidos de Nova York, contrapondo-se e, ao mesmo tempo, unindo-se à apresentação mais sensorial de “Piano & I”. Pouco depois, a artista resolve fazer homenagem à sensualidade das girl groups dos anos 1990 e 2000 com “Karma”, cuja categórica declaração nos relembra de atos como o subestimado Mis-teeq.

Há um senso estético de profundo charme nas iterações que Alicia se dispõe a produzir e a escrever, tomando as rédeas de basicamente todo o processo criativo. Cada elemento é empolgante, dissonante do melhor jeito possível, e envolvente através de uma elegância saudosista e narcótica que viria a influenciar diversos nomes – incluindo Adele e Amy Winehouse com seus resgates mnemônicos do auge do soul e do blues. Os empolgantes interlúdios, “Feeling U, Feeling Me” e “Nobody Not Really”, atravessam a esfera cinemática e constroem narrativas sinestésicas que unem o melhor dos dois mundos em um breve escopo – fruto de uma imaginação irrefreável que sabe como se manter ávida em mundo movido pela rapidez.



A cantora sabe como tirar seu tempo para cautelosamente arquitetar dimensões novas e que a colocam numa exclusividade atemporal impecável e apaixonante. De fato, esse proposital anacronismo (que não deve ser entendido como antiquado, e sim como para além da cronologia humana) é a força-motriz de diversas tracks, ainda mais quando resolve homenagear Dionne Warwick e Gladys Knight com o mash-up “If I Was Your Woman/Walk On My”, retomando a arte dos anos 1960 e 1970 com infusões modernas do R&B e do hip-hop (dois gêneros que já haviam se tornado marca registrada de sua discografia). As consagrações permanecem na noventista “Slow Down” que, movida pelo piano, Alicia cria uma montanha-russa de experimentalismos que seguem caminhos inesperados e com vida própria; “Samsonite Man” a leva ainda mais longe, em uma trama sobre um relacionamento que não mais funciona.

Keys faz algumas escolhas ousadas no tocante a termos – certas investidas que fogem do lirismo a que estamos acostumados, motivo pelo qual podemos achar estranho parte das rendições. Mas, enquanto ela pode pecar na lapidação de algumas arestas pungentes, nos envolve pela potência ilimitada de seus vocais e pelas fabulescas e circenses acrobacias que funde em cada música; “You Don’t Know My Name” é a iteração que mais exemplifica a dificuldade em se cantar as obras da performer, pela intricada progressão e pela duração de mais de seis minutos (algo normal, considerando as epopeias digressivas de sua obra anterior.

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Na supracitada “If I Ain’t Got You” e em “Diary”, faixas que coerentemente se isolam na primeira metade do álbum, Alicia Keys encontra espaço de sobra para falar sobre seu tema principal, resumido no chamativo carpe diem. “Algumas pessoas vivem pela fortuna; algumas, pela fama”, são os versos que clarificam o que precisamos buscar para ser feliz, algo que foge do materialismo exacerbado da sociedade contemporânea e que se isola em um plano intangível e metafísico – amizades, amor, espiritualidade, esperança… Não importa como você o entenda, ‘The Diary of Alicia Keys é uma produção que conversa com todos e que nos dá respostas mesmo quando não acreditamos precisar delas.



Nota por faixa:

  1. Harlem’s Nocturne – 5/5
  2. Karma – 4/5
  3. Heatburn – 4/5
  4. If I Was Your Woman/Walk on By – 4/5
  5. You Don’t Know My Name – 4/5
  6. If I Ain’t Got You – 5/5
  7. Diary (feat. Tony! Toni! Toné!, Jermaine Paul) – 4,5/5
  8. Dragon Days – 4/5
  9. Wake Up – 4,5/5
  10. So Simple (feay. Lellow) – 4,5/5
  11. When You Really Love Someone – 5/5
  12. Feeling U, Feeling Me – 5/5
  13. Slow Down – 5/5
  14. Samsonite Man – 5/5
  15. Nobody Not Really – 4,5/5
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