Depois de dois grandes sucessos de crítica e de venda, Alicia Keys deu uma breve pausa em sua carreira que durou quatro anos. Com exceção de um álbum ao vivo intitulado ‘Unplugged’, a icônica artista contemporâneo preparava terreno para sua produção mais madura até então, o subestimado As I Am. Claro que, assim como as obras anteriores, o CD garantiu inúmeras estatuetas do Grammy Awards à performer e vendeu mais de 5 milhões de cópias desde seu lançamento – mas teve uma recepção morna por parte da crítica, definitivamente não chegando ao mesmo nível de aclame de Songs in A Minor ou ‘The Diary of Alicia Keys. A explicação talvez seja bem simples – afinal, quando uma mulher, especialmente negra, resolve buscar pela reinvenção e pelo contínuo desejo de empoderamento, é logo criticada por qualquer razão.

Afastando-se dos experimentalismos dissonantes de suas primeiras incursões, que traziam a artista em uma jornada de autodescobrimento estético, Keys resolveu se fixar no R&B e plantar suas raízes nas explorações sentimentais de baladas e semi-baladas românticas, sempre abusando de suas habilidades vocais e entregando rendições impecáveis. O single mais famoso de seu terceiro álbum de estúdio, “No One”, é uma belíssima declamação amorosa que parecer ter se escrito por conta própria, apenas usando a cantora como receptáculo para se materializar; a nítida e propositalmente quebradiça incursão, que delineia uma montanha-russa sensorial, faz alusões a lendas da música, incluindo Aretha Franklin e Whitney Houston, quebrando fórmulas padronizadas pelo mainstream e sendo impulsionada pelo subjetivismo emocional.

Não é à toa que a faixa levou para casa dois prêmios do Grammy, incluindo Melhor Música R&B – além de ter se tornando a música mais vendida de 2007. O apreço pela reclusão intimista e reflexiva aparece em diversas outras tracks, como a impecável “Tell You Something (Nana’s Reprise)”, que analisa um mundo sem amor e sem esperança com uma quasi-teatral performance que arranca lágrimas até dos mais fortes; ou então do classicismo orquestral de “Prelude To a Kiss”; ou até mesmo das similaridades “Lesson Learned”, cantada com perfeição ao lado de John Mayer, apesar da trama clichê. A verdade é que não importa de que forma Alicia conte suas histórias – ela sempre nos convence de que há algo entre os bem pensados versos e a cautela com a qual ela conduz cada nota, seja em epopeias, seja em breves poemas cantados que encantam nossos ouvidos.

É notável como as habilidades de composição de Keys apenas melhoraram com o tempo, sendo bem aproveitadas para uma atemporalidade invejável e um envelhecimento longevo que permite que as canções sejam atuais mesmo depois de uma década. É o caso, por exemplo, da ingenuidade saudosista de “Teenage Love Affair”, em que a artista revisita seus anos como adolescente e nas descobertas do primeiro amor – que nos joga de volta para o início dos anos 2000 e para a redescoberta do neo-soul e do hip-pop. Já em “Go Ahead”, o dinamismo alcança um patamar mais sensual, dark e envolvente, fruto também de um nostálgico apreço pelas inflexões adotadas por Christina Aguilera em ‘Stripped’ (mais precisamente na adorada “Fighter”, lançada ainda em 2002).

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Este não seria um álbum de Alicia Keys sem a exaltação do piano, é claro. Logo de cara, somos agraciados com mais uma breve e irretocável introdução que une sutil e fluidamente o passado e o presente; a faixa-titular é uma preparação, assim como “Piano & I” e “Harlem’s Nocturne”, às aventuras de uma performer completa e que se reinventa, ainda que de um jeito modesto, ano após ano. Ousando em “Sure Looks Good to Me”, que presta homenagem à esquecida Anna Nalick, e deixando se levar pela sinestesia de “Prelude To a Kiss” (um dos títulos mais evocativos de sua discografia), Keys continua a demonstrar sua paixão pelas teclas do instrumento e como se conecta como ninguém a um instrumento vinha caindo em desuso há algum tempo.

A cantora e compositora também não pensa duas vezes antes de trazer suas inspirações à tona. Ela volta a flertar com o soul em “Superwoman”, permitindo que a lendária Linda Perry empreste suas habilidades à lírica de um neo-folk digno de uma trilha sonora cinematográfica; em “Where Do We Go from Here”, o blues e o hip-hop se amalgamam em uma explosiva e circense rendição que seria reutilizada por Amy Winehouse e Adele; já em outras faixas, a pressão teatral parece falar mais forte, eventualmente manchando o que poderia ser uma obra perfeita – como é o caso de certas construções esquecidas com o tempo, como a impetuosa “The Thing About Love” ou a reciclada “Wreckless Love”, cujas bizarrices poderiam ser melhor aproveitadas. Felizmente, os deslizes não são possantes o suficiente para ofuscar os múltiplos ápices do CD.



As I Am mais uma vez aposta no retrato nu e cru de Alicia Keys, contribuindo para sua crescente carreira e para um amadurecimento adorável e envolvente – algo que não vem com nenhuma surpresa, considerando o que ela já havia nos entregado antes.

Nota por faixa:

  1. As I Am – 5/5
  2. Go Ahead – 5/5
  3. Superwoman – 4,5/5
  4. No One – 5/5
  5. Like You’ll Never See Me Again – 4/5
  6. Lesson Learned (feat. John Mayer) – 3,5/5
  7. Wreckless Love – 2/5
  8. The Thing About Love – 2/5
  9. Teenage Love Affair – 3,5/5
  10. I Need You – 3,5/5
  11. Where Do We Go from Here – 5/5
  12. Prelude to a Kiss – 4/5
  13. Tell You Something (Nana’s Reprise) – 5/5
  14. Sure Looks Good to Me – 5/5
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