A princípio, a nova série do Prime Video, All Her Fault, parecia seguir um caminho comum e óbvio, dentro das pretensões de surpreender através de uma trama que gira em torno de um acontecimento que recai sobre uma família muita rica e das verdades de uma desconstrução logo se apresentando. No entanto, os caminhos para se chegar nas conclusões dessa história se torna a grande sacada de um roteiro bem amarrado, com poucas pontas soltas e ótimos personagens, que conduzem o público a reflexões profundas sobre as relações.
A série vai direto ao ponto desde o primeiro minuto, mostrando que tinha muito mais a oferecer do que um mero suspense que logo apresenta. A envolvente narrativa, pincelada por flashbacks, conduz o público para reviravoltas inesperadas e expõe vícios, machismo e casamentos quase de fachadas. Ao abrir as portas de mansões e colocá-las em uma vitrine, a trama apresenta relações deterioradas em arcos familiares que aparentam a perfeição, mas que, na verdade, escondem diversas questões morais, que explodem a partir de uma situação dolorosa.

Marissa (Sarah Snook) é uma empresária bem-sucedida que leva uma vida confortável ao lado do marido, o investidor Peter (Jake Lacy), na cidade de Chicago. No entanto, toda a aparente perfeição e sucesso da família é colocado em xeque quando o filho do casal é sequestrado por uma mulher misteriosa. A partir desse ponto, pessoas próximas ao casal passam a se tornar suspeitas, nos guiando para desenrolares bombásticos que afetam a vida de todos os personagens.

Podemos dividir toda a trama em algumas partes. Em um primeiro momento, o contexto geral se estabelece a partir do acontecimento central, abrindo margem para dúvidas sobre inúmeros personagens. A partir do quinto episódio, o quebra-cabeça proposto vai se afunilando, sem nunca esquecer a investigação que se segue – ponto fundamental para que a atenção se torne constante do início ao fim –, conduzido por um dos melhores personagens da obra: o detetive Alcaras, interpretado com maestria pelo ótimo Michael Peña.

A pluraridade dos personagens chama a atenção, entre aqueles que vivem dentro de uma bolha e os que estão fora dela, cada um com sua importância na história. Assim encontramos a ótima protagonista – interpretada por Sarah Snook, em atuação destacada – imersa num casamento à beira de um colapso; Jenny (Dakota Fanning), a vizinha em um casamento infeliz, que desempenha um importante papel na trama, mesmo esquecida em alguns importantes episódios; Brian (Daniel Monks) e Lia (Abby Elliott), os irmãos cuidados de forma sufocante pelo marido da protagonista; e Colin (Jay Ellis), o sócio e amigo de Marissa que esconde seus próprios segredos, além de outros personagens que vão se juntando à trama.

Com um clima de suspense constante, abraçado a um poderoso drama que se constrói através das relações entre pais e filhos – abordando a maternidade, a paternidade e deslizes morais -, a série rompe as camadas superficiais do desenvolvimento dos personagens, nos levando até a imprevisibilidade e uma análise profunda sobre a psicopatia, na qual mentiras e manipulações se tornam peças importantes de um tabuleiro macabro que vai se formando.

Teorias vão se amontoando e logo desmontando-se, como se a série convidasse o público a despertar o lado Sherlock Holmes que existe em cada um de nós. All Her Fault, baseada em uma obra homônima escrita por Andrea Mara, é muito mais que uma obra envolvente dividida em oito capítulos: joga na tela questões importantes sobre relacionamentos e mostra como um castelo de cartas aparentemente perfeito pode esconder dores silenciosas.



