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Crítica | American Son – Filme da Netflix com Kerry Washignton vai fazer você passar MAL


Antes de começar a crítica, deixo um alerta: ‘American Son’ não é entretenimento, e não se surpreenda se você passar mal. É verdade. Eu mesma tive que parar o filme duas vezes para respirar, e, no final, tive que me conter para não botar tudo pra fora.

American Son’ é o lançamento da semana da Dona Netflix e ele não te espera estar pronto. O filme já começa começando, com uma mãe, Kendra (Kerry Washignton, em atuação inacreditável), tentando falar com o filho, Jamal, mas ele não atende o celular. Em seguida aparece um policial, o oficial Larkin (Jeremy Jordan, que te faz ferver de raiva), e entendemos que Kendra está numa delegacia, aguardando informações. Larkin é incapaz de dar qualquer dado sobre o paradeiro do jovem, repetindo incansavelmente que há um protocolo a ser seguido e que devem aguardar a chegada de seu superior, o inspetor John Stokes (Eugene Lee firme e pontual em sua breve participação). Em seguida, o ex-marido de Kendra, Scott (Steven Pasquale, quase clichê num papel facilmente odiável), que é oficial do FBI, adentra o recinto, e o cenário se completa com todos os personagens para uma profunda, terrível e necessária discussão.



A sequência da primeira cena é simplesmente de tirar o fôlego (foi ao final dela que fiz minha primeira pausa, porque não dava para acreditar no que eu estava vendo). O embate entre Kerry Washignton e Jeremy Jordan é inacreditável, feito de um fôlego só, como se tivesse sido gravado de uma só vez. Aos poucos vamos entendendo que a obra toda é filmada dessa forma, em um único cenário, com pouquíssimas alterações, com os três atos marcados com revelações impactantes e totalmente baseada em excelentes atuações e em uma história mais excelente ainda. Isso significa que a carga dramática do enredo vai aumentando, aumentando, de maneira constante e ininterrupta, e, por isso, a gente tende a prender a respiração. A trama vertiginosa vai espiralando o espectador, envolvendo-o ao ponto da gente simplesmente se dar conta de que tudo que queremos é que aquilo acabe – e rezamos para que não seja uma tragédia anunciada.

Nota-se que a produção foi de baixo custo, e isso é uma coisa boa (afinal, tudo que um filme precisa para ser bom é ter uma boa história), e o aspecto teatral não passa despercebido – ‘American Son’ é a adaptação cinematográfica de uma peça da Broadway de mesmo nome e elenco. Portanto, transpor a ambientação do teatro para um longa-metragem sem que isso fosse um ponto evidente na trama foi um desafio facilmente transposto pelo diretor Kenny Leon, cujo resultado transporta o espectador para dentro daquele cenário.

Com um argumento simples (uma mãe que espera em uma delegacia notícias de seu filho desaparecido, sendo este um bom garoto, estudioso e que nunca chegou tarde em casa), ‘American Son’ utiliza o tempo da espera para debater temas profundos da sociedade norte-americana (e que se estende a todas as Américas): o racismo cotidiano, o privilégio branco, a miscigenação e a segregação, o machismo, o preconceito, a má preparação das autoridades policiais, as bolhas sociais, o desamparo da mãe solteira e a solidão do despertar de uma raça. Em um diálogo tocante sobre o filho entre a mãe e o pai, este fala “eu não vou aceitar ele se vitimizando por ser quem é”, ao que a mãe responde “e eu não vou aceitar ele se desculpando por ser quem é”.

Dialogando bastante com ‘O Ódio Que Você Semeia’, ‘American Son’ não é um filme perfeito, afinal, faz uso de personagens bem convenientes para construir sua trama. Entretanto, essa apropriação do clichê não tira o peso da pedra colocada no acelerador deste longa-metragem que atropela o espectador com força total. ‘American Son’ vai te fazer passar mal no fim, pois a reflexão é o seu objetivo.

 

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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