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Crítica | Ammonite – Kate Winslet e Saoirse Roman encontram o refúgio do afeto em filme de época


As relações sociais na Europa de meio de século XIX eram quase exclusividade do universo masculino. Naquela época, poucas mulheres tinham a oportunidade de ser algo mais do que esposa e dona de casa. Do contraste desses dois mundos tão distantes surge o romance dramático em ‘Ammonite’, filme que chega com exclusividade aos espectadores brasileiros através do aluguel nas plataformas digitais.

Mary Anning (Kate Winslet) é uma renomada escavadora de fóssil. Renomada entre parênteses, pois, embora seja muitíssimo competente em seu trabalho, as peças encontradas por ela não levam seu nome. Certo dia Mary recebe a visita do Sr. Murchison (James McArdle), um estudante londrino que deseja aprender tudo com ela, e, para tal, pretende pagar-lhe uma boa quantia. Só que o rapaz está acompanhado da esposa, Charlotte (Saoirse Ronan), que precisa repousar dos nervos. Então, após o período de estágio com a especialista, Roderick pergunta se Mary pode fazer companhia à sua esposa durante o período de convalescência dela, e o que era para ser um fardo indesejado acaba despertando o amor entre elas.



Escrito e dirigido por Francis Lee, ‘Ammonite’ é um filme morno e moroso. E, a bem da verdade, um bocadinho machista. Os dois momentos-chave do longa são oriundos dos dois únicos personagens masculinos da produção: primeiro o marido rico, que chega sem ser convidado na oficina da escavadora e, por ser homem e ter dinheiro, se acha no direito de interromper o trabalho da especialista e, a troco de dinheiro, absorver o conhecimento dela – que, por sua vez, não encontra saída, afinal, precisa comer, e seu trabalho não leva seu nome, de modo que ela não ganha prestígio; em outro momento, quando Charlotte adoece sozinha na cidade, o médico que a atende simplesmente vira para Mary e fala que, na ausência do marido da outra, ela deveria cuidar da moça, afinal, ela é mulher e é isso que as mulheres deveriam fazer. Ou seja, não fossem esses dois homens se impondo na vida de Mary, provavelmente a história toda não se desenrolaria.

Kate Winslet até está bem como uma mulher reclusa, fechada em sua concha antissocial, mas Saoirse Roman mostra-se completamente desarmoniosa no papel de dama indefesa da sociedade. Juntas, as duas se mostram bastante desconfortáveis em construir uma relação amorosa, e as trocas de carinhos entre elas são sem química e, portanto, não convencem. As duas cenas de sexo do longa até convencem, mas, dado o contexto pouco crível, ficam deslocadas no todo da produção.

Ammonite’ é uma produção melancólica, que retrata a solidão de duas mulheres de classes sociais diferentes que, diante da exclusão no mundo dos homens, se rendem ao refúgio do afeto para sobreviverem emocionalmente. Diferentemente do vigor de ‘Retrato de uma jovem em chamas’, ‘Ammonite’ propõe o foco do cotidiano entediante e limitado das mulheres de 1850, mas que, ao encontrarem outras mulheres com os mesmos anseios, conseguem recuperar o gosto pela vida através do amor.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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