sábado, fevereiro 7, 2026
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Crítica | Anon – Era para ser um sci-fi da Netflix, mas é apenas um jogo de polícia e ladrão





Com o roteiro de O Show de Truman (1998) e direção de Simone (2002) e O Preço do Amanhã (2011) no currículo, Andrew Niccol já se comprovou como um devoto do sci-fi, no qual a tecnologia costuma mostrar seu lado mais obscuro em forma de entretenimento e/ou manipulação. Seguindo essa ideologia, Niccol escreve e dirige Anon (Anon), um suspense em tons de filme noir, em que detetives buscam pistas para desvendar os crimes de um hacker serial killer .

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O grande diferencial é a ambientação da história em um futuro não tão distante, em que as pessoas possuem etiquetas virtuais acessíveis ao olhar de todos, com informações de nome, idade, ficha criminal e ocupação. Ou seja, a humanidade está completamente registrada em um banco de dados virtual e tudo que as pessoas vêem pode ser acessado pelo departamento de segurança.

Com grande inspiração em Black Mirror (2011-) e Minority Report (2002), o enredo apresenta o detetive Sal Frieland (Clive Owen) que passa o seu dia investigando crimes sentando em uma cadeira de frente para uma mesa vazia. Afinal, ele só precisa acessar a localidade de qualquer suspeito e seus códigos para olhar através dos olhos do procurado. Desse modo, nenhum crime é encoberto, entretanto, o sistema pode ser manipulado pelos seus operadores.

Ao ser apresentado a um crime sem precedentes, em que um hacker retira a visão da vítima e a coloca na perspectiva do assassino – apresentando um estilo idêntico aos dos videogames de combate (primeira pessoa) -, o departamento de segurança entre em alerta máximo. Assim, Sal se atenta para o fato de ter cruzado com uma mulher na rua sem identificação e acredita que ela pode estar envolvida com os assassinatos.

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Até então, Anon transcorre como um suspense paulatino e um interessante jogo de espionagem das ações humanas, na qual a privacidade não tem espaço. Ao mesmo tempo, o filme traz um aprofundamento da vida pessoal do detetive expondo suas perdas e fraquezas, trazendo assim uma narrativa mais introspectiva para o jogo de investigação.

Para conseguir identificar o suspeito, o detetive busca um traço semelhante entre todas as vítimas e encontra um perfil de pessoas bem sucedidas e contraventoras que precisam apagar vestígios dos seus pequenos delitos. Assim, Sal veste-se de um personagem rico, contrata uma prostituta e busca entre os hackers disponíveis na nuvem, alguém para apagar suas pegadas imorais.

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Depois de algumas tentativas, ele consegue achar a mulher não-identificável e solicita uma sessão para limpar o seu passado. Anon é o codinome da hacker personalizada em Amanda Seyfried de peruca castanha. Com o mexer dos olhos, ela reconfigura os códigos da visão do detetive e apaga a sua presença da vida dele, entretanto, ela deixa nele uma impressão não deletável. 

É possível sentir a química entre os personagens de Owen e Seyfried. O encontro entre ambos funciona como uma virada, em que o detetive se deixa envolver pelo inimigo e o investigador transforma-se em investigado. Por outro lado, enquanto o jogo de sedução funciona, a manipulação da memória e visão que a nova tecnologia proporciona é explorada de maneira irrisória.

Isso porque o foco é na perseguição e todo o potencial do filme se volta para isso. Ou seja, o que poderia ser uma obra questionadora sobre a noção de moral, a dicotomia de vigiar e punir, a privação da liberdade pelo controle da segurança, o aprisionamento social e mental, torna-se um caso dos livros de Agatha Christie a ser resolvido. Até os créditos finais, o filme continua com um tom superficial, apesar da grande direção de arte e design ao reimaginar um mundo que há de vir.

Como ficção científica, Anon decepciona e, como suspense policial, termina o mistério de forma apática e pouco inteligente, deixando sua maior premissa – o poder dos hacker em acabar com o sistema ou se esconderem de crimes – entreaberta e sem uma verdadeira solução. O fim é semelhante a todas as obras de busca pelo assassino, em que normalmente está sempre em cena, mas ninguém olha com atenção, até porque as motivações são sempre pífias.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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