É preciso estar atento aos jovens, e não precisa ser pai ou mãe para entender isso. De uns anos pra cá, tanto o mercado audiovisual quanto o mercado literário tem voltado seus olhos com maior atenção a este público, não só porque são ótimos consumidores (afinal, a mesada tá aí pra isso), mas porque eles são o público em formação, e um público que, assim como os outros, também quer ver suas angústias, seus sonhos, seus medos sendo retratados nas páginas e nas telonas. Nessa trajetória, chega aos cinemas no próximo dia 29 de outubro nos cinemas brasileiros o filme ‘As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você’, baseado no livro de Fernanda de Castro Lima e que teve sua premiere no Festival do Rio esse ano.

Gabi (Any Gabrielly) e Julia (Giulia Be) são melhores amigas desde pequenas. Gabi é mais tímida, menos corajosa e mais fechada sobre conhecer novas pessoas; já Julia é espírito livre, leve e solto, e vive intensamente cada oportunidade que a vida proporciona. Inseparáveis, a dinâmica dessa amizade muda completamente quando a vida de Julia é ceifada após um acidente de carro. Inconsolável, Gabi tenta seguir sua vida, de maneira meio zumbi, até o dia em que a mãe de Julia (Regiane Alves) lhe entrega dez cartas que sua filha deixara para Gabi, pois, sentindo que não resistiria aos ferimentos, quisera deixar desafios para sua melhor amiga seguir em frente e aprender a viver a vida com mais sabor e menos medo.
‘As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você’ sabe exatamente quais são as angústias de seu público-alvo e encontra a maneira certa de falar com ele. Até porque, ser adolescente é comum em qualquer região ou país e, por mais que a situação econômica ou a cultura possa ser diferente, os sentimentos (pertencimento, aceitação, medo do futuro, questões com o corpo, sexualidade etc) são comuns em qualquer época. Mas hoje falamos abertamente sobre.
E esse é o grande barato do filme. O roteiro de Diego Freitas e Rod Azevedo pega os pontos sensíveis aos jovens e os escuta, colocando-os na vivência da protagonista que tem falhas e qualidades como qualquer ser humano. Nem tudo que ela faz é certo, nem tudo que ela fala é bom. Mas errar, ter medo, e até mesmo machucar alguém faz parte da jornada, mas o amadurecimento vem a partir do momento em que se reconhece os erros e se pede desculpas e se enxergar as limitações e se coloca em primeiro lugar.

Talvez para quem já esteja muito distanciado desse tempo juvenil a trajetória dessa garota insegura que se alicerça na amiga falecida para encontrar seu próprio caminho possa não tocar tanto (afinal, são dez desafios, e uns parecem mais exagerados que outros). Mas é inegável a emoção que se sente na sequência final dessa protagonista, e isso é algo que o diretor Diego Freitas sabe trabalhar muito bem. Aqui sua excelência se imprime no tempo – o tempo escolhido para os desafios (os mais importantes com mais tempo, os menos, reduzidos), o tempo para a perlaboração da protagonista, o tempo do sentir, na entrada dos novos personagens, dos flashbacks, do tempo de tela. Experiente, Diego administra o tempo sem que a gente perceba, e, assim, tece uma história que mesmo parecendo previsível, ao final arrancha lágrimas até mesmo do mais insensível espectador.
Para compor uma trama juvenil que dialoga com o jovem interior em todos nós, Diego ainda elencou o talentoso Daniel Rangel, que compõe um nerd fofo impossível de não amar, além de Sheron Menezzes como uma mãe sofrendo, Leo Jaime como um dançarino adorável e participações especiais de Juliano Floss como instrutor de acampamento e do próprio Diego como professor. Neste universo, o destaque fica para Pâmela Germano, que imprime bastante personalidade à jovem Lorena, com um quê de Wandinha brasileira.
Por mais que a gente torça para tudo dar certo e ser bom, a juventude também pode ser atravessada por tragédias e momentos ruins. É preciso estar atento, abrir escuta e acolher os sentimentos desses jovens sem minimizá-los. ‘As Dez Vantagens de Morrer Depois de Você’ faz isso de uma forma atenciosa e sincera.



