Crítica – At The Sea: Amy Adams encara o vazio em drama que se perde na própria deriva (Berlinale 2026)

Um close no rosto de Amy Adams encarando o vazio. A câmera se abre e revela que ela está em um círculo de percussão, batendo um tambor com outras pessoas, mas sua expressão permanece congelada, deslocada daquele ambiente. Assim começa At The Sea, do húngaro Kornél Mundruczó, exibido na competição do Festival Internacional de Cinema de Berlim. A promessa é clara: estamos diante de uma mulher dissociada, à deriva. O mar que dá título ao filme surge como metáfora evidente dessa condição.

O longa acompanha a ex-bailarina Laura (Amy Adams), que retorna para casa após seis meses em reabilitação, depois de um acidente de carro com o filho provocado pelo abuso do álcool. Diretora de uma companhia de dança, mãe de dois filhos, esposa distante, herdeira de uma vida confortável — as camadas dramáticas são abundantes. Nenhuma, porém, se articula de maneira orgânica. Tudo soa como esboço.

O roteiro de Kata Wéber insiste em flashbacks de um pai exigente e na sugestão de um trauma infantil que teria levado ao álcool como válvula de escape. Essas memórias, no entanto, carecem de densidade emocional e não reverberam no presente. Funcionam como explicação, mas não como drama.

As cenas de dança no presente são especialmente frágeis. A coreografia e a preparação corporal não convencem como trajetória profissional de alto nível. A encenação é rígida, por vezes constrangedora. A repetição de enquadramentos — Laura caminhando pela costa, quase sempre com saída de praia sobre o maiô ou de camisola — reforça uma monotonia visual que contamina o filme. Figurino e direção parecem ter desistido da personagem, assim como ela parece ter desistido de si mesma.

A letargia que domina Laura poderia ser lida como depressão ou como efeito da abstinência alcoólica. O roteiro, entretanto, não escolhe um eixo dramático claro. Ela busca redenção? Reconstrução familiar? Libertação artística? Nada se consolida como trajetória. O que se vê é uma mulher paralisada diante da própria vida, sem que o filme construa forças dramáticas capazes de tensionar essa inércia.

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A relação com o marido Martin (Murray Bartlett), permanece vaga. A tensão com a filha adolescente (Chloe East), que assumiu responsabilidades durante sua ausência, é tratada de forma colateral. O filho mais novo (Redding Munsell) demonstra ressentimento, mas qualquer possibilidade de lidar com as consequências do acidente provocado por ela se dissolve rapidamente após um incidente com uma queimadura de água-viva, mais um episódio que não produz consequências significativas.

Surge então um possível ponto de inflexão: um vendedor de pipas interpretado por Brett Goldstein, conhecido pela série Ted Lasso. Ele representa a promessa de uma conexão e de um recomeço. Contudo, a relação se limita a diálogos expositivos sobre vício e sobrevivência “um dia de cada vez”. Não há tensão, nem química, nem transformação.

Nem mesmo a longa discussão entre mãe e filha na praia, que deveria constituir o clímax emocional, encontra força dramática. O conflito não se sustenta, e a reconciliação soa forçada, culminando em uma dança conjunta sem coordenação ou significado claro. O gesto, que poderia simbolizar reconstrução, apenas reforça a artificialidade da encenação.

Seis vezes indicada ao Oscar, Amy Adams parece novamente presa a projetos que prometem complexidade psicológica, mas resultam em superficialidade. Desde Era uma Vez um Sonho (2020), passando por A Mulher na Janela (2021) e Canina (2024), sua filmografia recente revela escolhas que não encontram a densidade dramática à altura de seu talento, como os trabalho com Denis Villeneuve e David O. Russell.

At The Sea propõe um estudo sobre vazio existencial, mas entrega vazio narrativo. O filme aspira a um retrato de trauma, culpa, abstinência e identidade artística — temas já explorados pela mesma dupla de diretor e roteirista em Pedaços de Uma Mulher (2020). Aqui, porém, eles optam por não se aprofundar plenamente em nenhuma dessas frentes. Ao final, impõe-se a pergunta: por que contar a história de uma mulher à deriva se o próprio filme não sabe para onde navegar? O vazio da personagem poderia ser devastador; o que permanece, entretanto, é apenas um vácuo.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.