segunda-feira, fevereiro 9, 2026

Crítica | Bad Bunny celebra a latinidade e o empoderamento cultural com histórica apresentação no Super Bowl

Bad Bunny vem trilhando um caminho de sucesso incomparável – e de importância magnânima. Após se tornar um queridinho dos assinantes do Spotify, quebrando recordes de streamings ao redor do mundo, o artista porto-riquenho fez história na 68ª edição do Grammy Awards ao se tornar o primeiro musicista a conquistar o maior prêmio da noite, o de Álbum do Ano, com um álbum em espanhol, Debí Tirar Más Fotos.

A vitória de Bad Bunny em uma das principais premiações dos Estados Unidos veio acompanhada de uma carga emblemática inegável e necessária, ainda mais considerando as contínuas políticas contra imigrantes e latinos promovidas pelo presidente Donald Trump e sua força-tarefa conhecida como ICE. Celebrando a cultura latina em todas as suas facetas, Benito Antonio Martínez Ocasio estava apenas nos dando um gostinho do maior palanque político a que poderia levar sua arte: o Show do Intervalo do Super Bowl LX. Escalado como o primeiro latino solo a se apresentar em um dos maiores palcos do planeta – e seguindo de perto o trabalho em conjunto de Shakira e Jennifer Lopez -, o performer deixou muito claro a todos a principal mensagem do ofício que vem exercendo com maestria desde sua estreia no cenário fonográfico.

É um fato dizer que a apresentação de Bad Bunny já pode ser considerada uma das melhores de todas as edições do evento, colocando no topo do ranking ao lado de lendas como Prince, Michael Jackson, Lady Gaga e Beyoncé. Com um sólido início que já denota o tom celebratório e testamentário da cultura latina em sua inenarrável diversidade, o set de inicia com uma poderosa rendição de “Tití Me Preguntó”, construindo um fio condutor que une as alteridades espalhadas pelo continente americano como um todo, mantendo-se fiel não apenas à temática explorada em seu premiado último álbum de estúdio, como às declarações de empoderamento e liberdade que explorou ao longo de sua discografia.

Mais uma vez, Benito não só nos agracia com uma gloriosa performance, um dos motivos que o tornou tão popular ao redor do planeta, mas aproveita cada segundo para celebrar suas raízes e todos aqueles que o apoiam na busca pela união e pelo amor frente a políticas contínuas e indeléveis de segregação. Singrando entre sagazes e sutis críticas ácidas a ideologias extremistas e neoimperialistas, o astro mostra que o legado latino é inegável e inescapável, escalando nomes como Pedro Pascal, Jessica Alba, Karol G, Ronald Acuna, Emiliano Vargas e Cardi B para lhe acompanhar nessa dançante e libertadora jornada.



O imprescindível tour-de-force guiado por Bad Bunny se espalha para outros momentos de extrema simbologia, principalmente à América Latina: a seleção apoteótica de elementos visuais, que variam desde os salões de manicure às cadeira de praia (em uma reorganização expandida da icônica capa de Debí Tirar Más Fotos), impulsiona e premedita a presença de vários rostos que apoiam essa fusão de celebração e respeito. Temos, por exemplo, Maria Antonia Cay, dona do popular bar Toñita que é frequentado pelo artista, faz uma breve aparição em uma memorialística e nostálgica marca que agora foi imortalizada no show.

Benito talvez tenha realizado o sonho de muitos – inclusive o próprio – ao introduzir Lady Gaga como convidada especial, assumindo postos sob os holofotes pouco depois de um casamento ser oficializado. Encantando-nos com um figurino quase dêitico que exibe a flor nacional de Porto Rico, a Flor de Maga, ela se solta em uma versão salsa do hit “Die With a Smile” e produzindo uma complexa narrativa semiótica em que uma artista estadunidense branca é “contratada” como atração musical de um casamento latino – invertendo papéis seculares de subjugação artística que, agora, é ressignificada por duas lendas da música.

Ricky Martin, por sua vez, nos surpreende com uma aplaudível rendição de “Lo que le pasó a Hawaii”, entregando vocais fabulosos que fornecem à faixa a carga emocional que traduz as mensagens de preocupação assinadas por Benito acerca de Porto Rico ainda estar sob influência e dominação dos EUA. Martin nos prepara para o ato final, em que, içando a bandeira do país, Bad Bunny lança mais uma mensagem de amor e de união ao citar todos os territórios americanos, alfinetando não apenas a pseudo-filosofia exclusivista estadunidense, mas as defesas feitas por Trump e seus aliados.

Benito não apenas nos presenteou com um dos melhores espetáculos de toda a história do Super Bowl, mas acertou em cheio ao transformar um dos maiores palcos do planeta em um palanque político, ainda mais considerando a tradição conservadora que normalmente se apoia nesse tipo de esporte. Não é surpresa que, mais uma vez, ele se reafirme como um dos performers mais importantes e incisivos de atualidade, fazendo da música um arauto de libertação e comunhão.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.