Crítica | Bate Coração: Comédia sobre travesti e doação de órgãos tem boa intenção, mas falha na execução

Crítica | Bate Coração: Comédia sobre travesti e doação de órgãos tem boa intenção, mas falha na execução

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Crítica | Bate Coração: Comédia sobre travesti e doação de órgãos tem boa intenção, mas falha na execução

Desconfortável, a doação de órgãos ainda é um grande tabu que encontra dificuldades de ser abordado no seio familiar. Em um país onde 47% das famílias brasileiras se recusam a adotar a medida, tentar tornar a temática mais digerível é um genuíno desafio. E com um quadro onde cerca de 44 mil pessoas estão na fila, à espera de um transplante de órgão (segundo dados de 2019 do Ministério da Saúde), a problemática nunca esteve tão latente assim. É em contextos como esse que o cinema encontra o seu respiro, sua brecha para tratar problemas reais, de maneira socioculturalmente didática. Bate Coração tem essa premissa arraigada em seu roteiro, tentado ir mais além, ao abordar o assunto pela ótica de uma travesti. Mas embora suas intenções sejam boas, a execução falha em cumprir seu real objetivo. 

Um dos aspectos mais fascinantes do cinema é justamente sua habilidade de confrontamento, gerando um desconforto necessário em relação à questões importantes. Em se tratando da produção de Glauber Filho, qualquer vestígio dessa natureza não se faz presente, embora haja tentativas frustradas. Tentando fazer a audiência se identificar com a narrativa de uma carismática e doce travesti, vivida por Aramis Trindade, a comédia falha na construção de seus próprios personagens, exageradamente caricatos e performáticos, como se todos fossem uma apresentação – não intencional – pitoresca de comportamentos reais. Um tanto forçados, a maioria deles perece em atuações fracas e novelescas que não são envolventes, mas que de fato se tornam cansativas e desconfortáveis de assistir nas telas. 

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Com o maior destaque ficando para Aramis, Bate Coração consegue se sustentar na leveza de sua caracterização, que tenta honrar a comunidade LGBTQ+, ainda que não seja a escolha mais sábia para o papel – em tempos onde a representatividade de gênero nos cinemas nunca foi tão necessária. Ainda assim, ele garante uma certa doçura para a produção, contrariando os demais personagens, que são estereótipos desgastantes de sexualidade, misoginia e machismo. Perdendo a oportunidade de abordar os contrastes das personalidades e caráter dos protagonistas de maneira genuína, a narrativa muitas vezes parece não se levar a sério como deveria, usando o humor de maneira um tanto equivocada, não sabendo construir o efeito dramédia de maneira realmente impactante, a fim de gerar um impacto os cinéfilos.

Raso demais para promover um nível de identificação com a própria audiência, a produção conta com um roteiro exageradamente simplista e piegas, que se desenrola em uma direção que repete o formato das telenovelas, com cortes e transições sem identidade artística. Perdendo o viés social que sua própria trama traz em suas raízes, o longa falha em promover uma reflexão mais profunda sobre a doação de órgãos, embora ainda consiga trazer um pequeno despertar sobre os perigos da homofobia – o que não deixa de ser um aspecto louvável. Ao final da experiência, Bate Coração é uma promessa que poderia ter se cumprido se tivesse saído de sua própria zona de conforto, mas infelizmente não soube usar todo o potencial de sua plataforma cultural para entreter o bastante, tão pouco para incitar uma metanoia em seu público.



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