Crítica | Bio: Construindo Uma Vida – Filme inova na forma para contar história

Crítica | Bio: Construindo Uma Vida – Filme inova na forma para contar história


Nota:


Filmes que narram a trajetória do protagonista do nascimento até a morte, como em uma espécie de biografia (fake ou não), não são raros no mundo do cinema. No entanto, Bio – Construindo Uma Vida, que tem roteiro e direção assinados por Carlos Gerbase, sai do lugar comum e se destaca por apresentar o clássico ciclo do “nasce, cresce, reproduz e morre” em forma de documentário e com uma dose extra de ficção científica. A princípio, para os que não gostam do gênero e nem desse formato documental, a premissa pode até soar monótona e desinteressante; mas, desde a primeira cena, a produção tem o mérito de conseguir prender a atenção e despertar a curiosidade sobre o que os personagens têm a dizer.

Premiado nas categorias de Melhor Filme pelo Júri Popular, Prêmio Especial do Júri pela Direção de Atores e de Melhor Desenho de Som no Festival de Gramado, Bio inova na forma para mostrar a trajetória de um cientista que conseguiu a façanha de viver 111 anos – e que, coincidentemente ou não, tinha uma condição biológica que o impedia de mentir (estará aí a receita para a longevidade?). Para isto, ele reúne depoimentos de familiares, amigos, colegas de trabalho e paixões; no entanto, em vez de seguir a linha clássica dos documentários – em que os personagens são entrevistados anos depois para que suas falas permitam revisitar o passado -, aqui, os depoimentos são dados na própria época em que o fato em questão aconteceu; ou seja, sem a nostalgia como um elemento crucial. Tudo começa em 1959, com os pais do cientista contando como o filho foi concebido por acidente, e termina em 2070, quando já no fim da vida, ele pede para a família desligar os aparelhos que o mantinham vivo.

Cada ano apresentado no documentário, conta sempre com o depoimento de três personagens e uma simples reprodução de um ou outro fato que está sendo narrado. Sem nunca mostrar o rosto do cientista ou se preocupar em ilustrar as falas enquanto a narração em off continua ao fundo, Bio faz com que o público use sua criatividade e, assim como acontece quando lê um livro, crie sua própria imagem mental do que está sendo relatado nas entrevistas. Mas vale dizer que tudo isso acontece sem que o que é mostrado em cena se torne desinteressante e acabe em segundo plano, já que o elenco com 39 atores – incluindo nomes de peso como Maria Fernanda Cândido , Marco Ricca, Tainá Müller, Maitê Proença e Sheron Menezzes – entrega uma boa atuação enquanto a câmera os captura para absorver o que cada um tem a dizer sobre o curioso cientista.


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Por visitar diferentes décadas nos 111 anos de vida do protagonista, outro mérito do filme está na preocupação com a caracterização de cada época. Do estilo retrô dos anos 50 ao visual futurista de 2070, roupas, cabelo, maquiagem e gírias conseguem nos transportar para o ano em questão enquanto acompanhamos as entrevistas na tela. Até mesmo a iluminação muda para que a passagem de tempo fique mais evidente – indo de uma fotografia mais intimista, voltada para os tons de sépia, para o estilo mais impessoal e clean do branco, preto e cinza que predominam nos relatos do futuro.

Além disso, não se limitando apenas à ficção, o filme de Carlos Gerbase também aproveita a passagem de tempo para tocar em questões pertinentes à vida em sociedade – como o carnaval relatado pelos seus irmãos mais velhos, a escolha da profissão e a deficiência no ensino focado apenas no que vai cair no vestibular (fato que fez o protagonista, erroneamente, estudar Direito antes de se encontrar na Biologia por não saber nada sobre a evolução das espécies). Sexo e tabus religiosos também são colocados em pauta durante a narrativa documental, tendo figuras como padres, a primeira professora que despertou interesse sexual na infância do cientista e a garota de programa responsável por tirar sua virgindade (embora, aqui, tenha faltado um maior desenvolvimento das questões sociais que a colocaram nesse papel). E não por acaso, mostrando como o sexo é importante na construção da sua narrativa, ele descobre sua verdadeira profissão enquanto transa com uma namorada da faculdade; e , mesmo perto do final da vida, ainda se apaixona por uma mulher anos mais jovem que ele – representada pela figura da belíssima Maria Fernanda Cândido.

No fim, depois de nos fazer pensar na trajetória da humanidade como um todo através da figura de um homem que não podia mentir, Bio dá uma última olhada em todos os personagens que passaram pela história, como se o último suspiro de alguém que vai deixar a Terra pudesse ser dado da frente para trás – como diz um famoso poema de Charles Chaplin. Já nos créditos, os trechos da música “Pavão Misterioso“, de Ednardo, aparecem como o fechamento perfeito para esse enredo de ficção científica que flerta tanto com a realidade. “Me poupa do vexame de morrer tão moço, muita coisa ainda quero olhar… Pavão misterioso, pássaro formoso. Tudo é mistério nesse seu voar“. Qualquer semelhança com a vida do cientista e com o que desejamos para a nossa não é mera coincidência.


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