“Interrompemos este programa para levar até vocês o programa do Coragem, o cão covarde. estrelando Coragem, o cão covarde”
Qualquer criança que cresceu nos anos 2000 provavelmente lembrou dessa introdução quando anunciaram Bom Menino, um filme de terror que mostraria a ótica de um simpático cachorrinho durante a experiência sobrenatural de seu dono. O que parecia ser uma adaptação de uma das animações mais queridas do início do século acabou se revelando um dos filmes mais criativos e interessantes de 2025, um ano muito bom para os fãs de terror.
A trama é bem simples. Um jovem está sofrendo com uma doença complexa e decide mudar para a casa que herdou do avô, onde espera ter um pouco de paz. No entanto, a propriedade fica numa área bastante isolada da floresta, sendo rodeada apenas por árvores, um cemitério e um vizinho caçador de raposas. Para acompanhá-lo neste jornada de isolamento, o rapaz leva seu melhor amigo, o cachorrinho Indy. Mas tem um problema: a casa esconde uma maldição de família que só é vista pelo cachorro. Agora, diante das limitações de um animal irracional, o doguinho vai tentar compreender o que está acontecendo, enquanto busca meio de avisar e proteger o seu tutor dos perigos dessa ameaça mortal.

A condução do filme é muito interessante, reforçada por um trabalho muito competente da equipe de cenário, que consegue criar uma casa que mantém aquela estética familiar americana ao mesmo tempo que constrói um ambiente hostil. Enquanto há cômodos grandes, com móveis tipicamente familiares, eles ornam o ambiente com fotos do avô falecido e uma porção de animais empalhados. Não bastasse isso, o quintal da casa é praticamente um cemitério cercado de armadilhas para raposa.
Ao mesmo tempo que isso representa um grande acerto do time de cenário, esses elementos exigem que o roteiro aposte na boa vontade do público para embarcar nessa jornada de suspensão da descrença, porque ver um homem com uma doença grave se mudar para uma casa cercada de elementos estranhos, e decidir ficar por lá mesmo sabendo que todos os membros da família que viveram lá acabaram morrendo jovens e acompanhados de seus cachorros… Dá uma forçada na barra que pode afastar alguns.

Mas não tem jeito. O grande diferencial do projeto é o Indy. A ideia de contar uma história de terror pela perspectiva de um animal de estimação é sensacional e consegue ter uma boa execução. A direção aposta em duas conduções. Uma pela perspectiva do próprio cachorro, mostrado pelo campo de visão dele, que se resume a pernas e móveis altos, e outra que coloca o público na perspectiva dos humanos, castigando no plongée. Isso dá ao cachorro uma posição de inferioridade na trama, que é comovente. A introdução, inclusive, é fundamental para construir essa posição de “tadinho” do protagonista. A vida da mascote é mostrada desde sua adoção, e não tem nada mais eficiente na hora de se afeiçoar a um cachorro do que vê-lo filhote. Mais do que isso, ele cresce como um “bom menino”.
Extremamente comportado, ele aceita alguns comportamentos estranhos e grosseiros do tutor, enquanto segue sua rotina de explorar a casa nova. Só que ele mesmo percebe certas bizarrices que causam uma sensação de perigo, enquanto o rapaz passa seus dias trabalhando ou vendo filmes antigos de terror. E isso permite que a direção brinque bastante durante a construção de tensão. Os primeiros momentos de estranhamento do Indy criam aquela dúvida: existe algo sobrenatural acontecendo aqui ou são apenas portas abrindo sozinhas e ventos chacoalhando cortinas?

Essa estratégia deu muito certo lá em 2009, no primeiro Atividade Paranormal. A construção de tensão era toda baseada em cenas desse estilo, a ponto de renderem comentários do tipo: “a gente estava com medo do vento”. Só que Bom Menino vai além e aposta na identificação. Quem tem cachorro em casa certamente já viu o querido latindo para o nada ou encarando com muita intensidade um ambiente aparentemente vazio. E isso é bastante trabalhado aqui. Mas há também o fator sobrenatural, que também aposta nessa questão da identificação e talvez consiga até mesmo emocionar quem já passou por alguma perda na família.
No fim das contas, Bom Menino acaba conquistando justamente por essas situações identificáveis. O filme não tenta “reinventar a roda”, se contentando em fazer o básico bem feito. Há momentos muito interessantes, como um jumpscare construído no reflexo do olho de um cachorro, e por ser um filme bem curtinho (1h13), cria um rápido e interessante entretenimento. Poderia ser um filme bem qualquer coisa, mas a escolha de protagonista foi realmente acertada. O time de casting encontrou um cachorro ridiculamente expressivo que consegue passar emoções melhor que muito marmanjo barbado em filme de grande orçamento. Ele rouba seu coração na primeira aparição. Você torce pelo cachorro do início ao fim.

Com esse protagonista sensacional e algumas decisões criativas bem executadas, Bom Menino é mais um bom filme de terror nesse ano recheado de boas produções no gênero. Vale a assistida com um baldão de pipoca para tentar amenizar a tensão de certos momentos criados.
