Cada Copa do Mundo tem seus ídolos inesquecíveis – e, anos mais tarde, vemos o resultado: diversas crianças que nascem carregando o nome dos heróis do futebol da época. Assim tivemos uma onda de Romários, Ronaldos, Bebetos um tempo atrás. E isso aconteceu com muitas cidades brasileiras na época da colonização, recebendo nomes, influências e inspiração de cidades europeias como Lisboa e Paris. E acontece até hoje, como pode ser visto no documentário ‘Buenosaires’, que teve exibição prévia no CinePe esse ano e já está em exibição nos cinemas por todo o país.

Zona da Mata em Pernambuco, interior do país, ao norte da capital Recife. A uma distância de aproximadamente 80km está localizado o município de nome ‘Buenosaires’, mesmo nome da capital portenha, que fica a uma distância de uns 5 mil quilômetros. Mas, tirando a localização geográfica, ambas as cidades são bem parecidas: têm pessoas que falam espanhol, tem empanadas para comer, tem um time de futebol que arrebata o coração dos moradores – o Boca Jrs. Só que essa pequena cidade pernambucana fica no Brasil, entre engenhos coloniais e a serra, com ruas mal asfaltadas, pouco investimento público e cerca de 13 mil moradores.
E é dessa ‘Buenosaires’ que o documentário de Tuca Siqueira quer falar – e conquista, no mínimo, a curiosidade do espectador. Em pouco mais de uma hora de duração o filme – narrado em castelhano, diga-se de passagem – vai apresentando essa curiosa cidade, desconhecida pela maioria da população do país, em todas as suas características – e, principalmente, em todas as suas semelhanças com a capital que margeia o rio da Prata.
Boa parte da captação das imagens ocorre durante a Copa do Mundo, de modo que o documentário se inclina boa parte sobre o impacto do futebol na rotina da pequena cidade. Para tal, somos convidados a acompanhar os preparativos de uma grande partida por vir, um clássico local: uma partida entre Boca Jrs e Penharol, só que não os times argentino e uruguaio, mas sim duas equipes locais. Mesmo assim, tanto os jogadores quanto o público assimila o acontecimento com a seriedade e o respeito tal qual uma final de Libertadores. Não fossem as imagens e apenas ouvíssemos a narração, daria até mesmo para acreditar em ser um evento oficial da Fifa.

Tuca Siqueira faz uma boa escolha em usar o humor para permear a apresentação dos elementos em seu documentário, sem, por isso, debochar da cidade; ao contrário, é esse leve ar brincalhão que atiça a atenção do espectador e faz a gente inclusive querer visitar a cidade, ver de perto a locação cuja população opta conscientemente em torcer para a Argentina na Copa do Mundo.
Por outro lado, entretanto, ainda que faça um panorama apresentativo do município, e que o documentário seja narrado por uma voz que conta e comenta aquilo que vemos, ficou faltando um ou mais personagens que fizessem o público se apaixonar pela história da cidade. Os poucos que aparecem são interessantes, mas não são aqueles sujeitos típicos que carregam a identidade de um lugar. E alguns elementos, como a fanfarra que desfila pela cidade, são mostradas, mas sua história não é delineada ao espectador, de maneira que a câmera fica parada na rua enquanto as pessoas passam na frente dela.
Curioso, ‘Buenosaires’ desperta o interesse do público pelo absurdo que é ser uma cidade real. Mais que um documentário, é um filme que mostra que o melhor do Brasil é de fato o brasileiro, com toda a sua criatividade e irreverência para viver à sua própria maneira – e os incomodados que se incomodem.




