segunda-feira, fevereiro 9, 2026
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Crítica | CAM – Suspense cibernético e sombrio como Black Mirror





Com uma ousada percepção do mundo cibernético e uma construção centrada na experiência da personagens Alice/Lola (Madeline Brewer), Cam (Cam) é um supreendente suspense que nos remete a alguns episódios do seriado inglês Black Mirror (2011-). A analogia é possível porque o filme, escrito por Isa Mazzei, aborda o trabalho de garotas se expondo na internet em busca de admiradores e contribuintes do seu show particular online, uma mistura de strip-tease e salas de bate-papo.

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A concepção dessa ideia é boa graça às experiências reais da roteirista neste mundo virtual, onde cada ação é agraciada com alguns doláres de homens dispostos a investir neste entretenimento de apelo sexual. Acompanhamos desde o início a ambição de Lola em chegar entre as 50 primeiras no ranking da plataforma. Sua performace neste cenário é de fato a sua profissão, ela investe tempo, criatividade e mantém um planejamento temático de cada transmissão.

A organização da história dividia em mundo real e vitural soa bastante verídica em termos estéticos e na atuação de Madeline Brewer. Alice conserva sua vida virtual/profissional em segredo da sua mãe, além disso ela estipula regras para manter a sua personagem, conversa com os seus espectadores, tal como um atendimento especial ao cliente em busca de ganhar mais condecorações e subir no ranking.

Ao mesmo tempo que constroi-se um modo de vida rentável, ela danifica as suas relações sociais no mundo real. Suas amigas são outras meninas participantes da mesma plataforma, ou seja, a amizade faz parte da competição entre elas. Quando surge uma amiga antiga em cena, Alice não sabe como reagir e mente sobre sua vida profissional. Com mérito à atriz Madeline Brewer, a personagem é envolvente e audaciosa para sua pouca idade.

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Com casa própria e luxos excessivos, bem distantes da realidade da mãe cabeleireira, Alice tem como principal objetivo conquistar o topo do ranking. Contudo, um obstáculo em forma de hacker surge no seu caminho. De repente, o perfil de Lola passa a fazer transmissões sem a sua presença e,  enquanto ela tenta recuperar o seu perfil, o seu alter ego começa a fazer mais sucesso e atingir sua vida real.

O suspense do filme é muito bem construído, pois Alice não desiste de recuperar o seu perfil e descobrir quem se passa por ela, tornando-se um jogo psicológico macabro. Cam consegue transmitir a angústia e a revolta da protagonista quando tem a sua identidade virtual roubada, sobretudo apresenta como a verdade pode ter diversas camadas a partir de diferentes perspectivas. Afinal de contas, todos os personagens do filme são suspeitos.

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Para este dilema, Alice vai longe na loucura do mundo online, uma espécie de história de inteligencia artificial apresentada nos episódios de Black Mirror. A inspiração para o roteiro de Cam pode ter partido de um desses devaneios distópicos tão palpáveis que assustam e impressionam.

Os personagens masculinos Tinker (Patch Darragh) – um perseguidor obsessivo -, e Barney (Michael Dempsey) – um cafetão generoso, são ótimos na construção do público-alvo do produto que Lola representa na internet. Apesar de não se despir ou manter relações sexuais com os clientes, o imaginário coloca Alice em um patamar de prostituição na sociedade, mas o filme de Daniel Goldhaber persiste na reflexão mais aprofundada e carrega uma aura feminista em sua personagem independente e obstinada, apesar de totalmente seduzida pela vida virtual.

Em questão de apresentação técnica, Cam é simples entre a tela do computador e a reação da atriz. O grande trunfo deste suspense é o roteiro bem coordenado e surpreendente, estimulador de um pensamento crítico sobre os próximos passos da humanidade em relação à internet. Além disso, Cam deve sua ousada narrativa à interpretação fabulosa da jovem Madeline Brewer.

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Letícia Alassë
Letícia Alassë
Crítica de Cinema desde 2012, jornalista e pesquisadora sobre comunicação, cultura e psicanálise. Mestre em Cultura e Comunicação pela Universidade Paris VIII, na França e membro da Abraccine, Fipresci e votante internacional do Globo de Ouro. Nascida no Rio de Janeiro, mas desde 2019, residente em Paris, é apaixonada por explorar o mundo tanto geograficamente quanto diante da tela.

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