Todo nerd que é nerd sabe que a vida de nerd não é fácil. Geralmente com poucos amigos, sem ser convidado para festinhas e eventos, as horas longe da escola/trabalho se resumem a partidas de jogos de tabuleiro/rpg/videogame ou lendo algum livro/vendo algum filme. Ao menos esse é o clichê padrão utilizado na indústria do entretenimento, e, embora muitos aspectos tenham mudado nos últimos anos (como a popularização da cultura nerd para além dos grupos nichados, através de grandes eventos de cultura pop como a CCXP e o Anime Friends), no imaginário coletivo é assim que um nerd se comporta. E é exatamente o perfil do protagonista de ‘Cansei de Ser Nerd’, nova comédia nacional que chegou essa semana aos cinemas.

Aírton (Fernando Caruso, da série ‘220 Volts’) é um jovem adulto ali na faixa dos quarenta anos que ainda vive com a mãe (Cissa Guimarães, atual apresentadora do Roda Viva) e ainda só tem um único amigo, Ulisses (Pedro Benevides, ‘Peçanha Contra o Animal’). É porque apesar do tempo ter passado, Airton ainda vive na sombra do passado mal resolvido de sua adolescência: a paixão por Juliana (Bia Guedes, de ‘Filhas de Eva‘) e a acusação que sofrera sobre um assassinato, que resultara em sua prisão. Mas hoje haverá uma reunião de 20 anos de formandos desse grupo, e Airton vê aí a sua oportunidade para limpar sua barra com relação a esse crime e, de quebra, reconquistar seu antigo amor.
Escrito por Renato Fagundes, Luiz Noronha, Thaisa Damous (que também faz um personagem, Cristal) e Gualter Pupo, o roteiro de ‘Cansei de Ser Nerd’ é bastante confuso. Começamos a história com um desfile de referências nerds logo nas apresentações dos personagens e do plot do filme, e são tantas as referências que beira a verborragia. Mesmo os mais chegados no assunto vão se sentir meio atropelados com as falas iniciais. Depois o filme nos leva para a tal festa de reunião de formandos, onde, apesar da proposta, aparentemente ninguém se conhece ou se reconhece, salvo os protagonistas, uma banda de ex-alunos e o professor. Ou seja, uma reunião de formandos com dez pessoas daquele tempo. Esquisito. Na festa, nos misturamos em uma seita que reverencia um cubo mágico que requer sacrifícios, enquanto vamos entendendo o relacionamento entre o casal que é apresentado aos poucos e em flashback. Por fim, do nada a coisa toda vira um grande filme de terror. Ainda que no final a sensação é a de ter percorrido diversos gêneros cultuados pela galera nerd, o caminho até essa possível conclusão é um tanto tortuoso.

Com direção de Gualter Pupo, o destaque é a forma criativa que o diretor utilizou de sua própria casa como locação para seu filme – que, por sua vez, ficou belamente iluminada e retratada com a fotografia inspirada de Gustavo Hadba. A forma inventiva com que essa dupla transforma um cenário limitador em espaço amplo é bastante interessante e transpira o fazer cinema.
O trio principal se alinha a seus personagens, mas é Pedro Benevides quem transpira maior naturalidade e entrega as melhores chances de piadas, ainda que o final da jornada do seu personagem seja de humor duvidoso.
Irregular e confuso, ‘Cansei de Ser Nerd’ era promissor, mas sua trajetória se desvia para tantos lados que deixa uma sensação de que a história quis ser muitas coisas num espaço curto de uma hora e meia, sem se resolver de maneira satisfatória e com planos longuíssimos. É a maior viagem. Ainda assim, para os nerds, ver suas paixões, suas referências serem mencionadas por um personagem brasileiro nas telonas é uma coisa bacana de ver.




