Crítica | Cara x Cara – Paul Rudd em dose dupla na cômica série de ficção-científica da Netflix



Feche os olhos. Pense na sua vida. Imagine que você não tenha que ir trabalhar, ou estudar, que não tenha que cozinhar, limpar a casa, buscar as crianças na escola, dar atenção ao marido ou à esposa. Imagine que você tem todo o tempo do mundo para si mesmo, para cuidar de si e se dedicar aos seus sonhos. Não seria incrível? Só que, para que isso aconteça, tudo o que você tem que fazer é colocar um outro igualzinho a você no seu lugar. E aí? Você toparia?

Esse é o mote da nova série da Netflix, ‘Cara x Cara’ (sim, o título é péssimo), estrelada pelo queridinho Homem-Formiga, Paul Rudd, na qual ele é o perdedor Miles Elliot, um marqueteiro classe média que um dia já foi bonitão, bem-sucedido e querido, mas hoje sente-se cansado, derrotado, deixado de lado. Certo dia, um colega de trabalho, Dan (o carismático Desmin Borges), chega completamente mudado ao trabalho e conta seu segredo a Miles: existe um spa misterioso onde você paga 50 mil dólares por um tratamento que dá literalmente um up na sua autoestima, transformando-o na melhor versão de você mesmo. Profundamente insatisfeito com sua invisibilidade na sociedade, Miles raspa a poupança e investe tudo nesse tratamento, porém, ao invés de sair do spa se sentindo bem, Miles sai dali com um clone de si mesmo.

- Ads -

Com oito episódios curtinhos de pouco mais de vinte minutos, ‘Cara x Cara’ é uma série que mistura comédia, drama, suspense e ficção-científica na medida, de maneira que um gênero não se sobreponha ao outro, e eles ocorrem nessa sequência mesmo. Um olhar mais atento pode encontrar na trama uma crítica ao estilo de vida da sociedade moderna, que suga o cidadão cada vez mais, ao ponto de ele não ter mais tempo para desfrutar do seu próprio sucesso; ou a forma como terceirizamos nossos problemas para que os outros resolvam pela gente, ao ponto de não termos mais controle de nossas próprias vidas. É uma opção de compreensão da trama.

- Ads -

Paul Rudd volta às suas raízes ao estrelar essa comédia, e dá um show na caracterização de dois personagens opostos, porém, que são, ao mesmo tempo, a mesma pessoa. Chamam atenção seus trejeitos em tornar evidente para o espectador quem é o Miles feliz e o Miles fracassado, de modo que, no que depende do ator, nós ficamos sabendo exatamente quem é quem durante boa parte do filme – isto é, quando o roteiro não prega peças na gente, plantando a dúvida em nossa cabeça. Mérito do criador da série, Timothy Greenberg, que também é um dos responsáveis pelo roteiro, apesar desta ideia não ser exatamente original (tem um episódio de ‘Rick & Morty’ que tem exatamente o mesmo argumento).

Ao resto do elenco coube a função de apenas assessorar as confusões de Miles, e fica um pouco complicado avaliar o desempenho dos atores, uma vez que Paul Rudd está em praticamente todas as cenas (senão todas!). Ainda assim, um breve recorte é dado à atriz Aisling Bea, que convence no papel da esposa de Miles, Kate, cuja participação aumenta da metade para o final da temporada – e, ao que parece, ganhará mais espaço em uma possível segunda temporada.

O que chama mesmo a atenção na construção de ‘Cara x Cara’ é a agilidade com que a câmera se move quando Paul Rudd está conversando com o outro ele, e a fotografia do primeiro episódio, que ajuda a construir o contraste do clone (a primeiríssima cena é Paul Rudd saindo da cova onde estava enterrado dentro de um invólucro de plástico, em clara menção ao ato de nascer) com o original (quando o verdadeiro Miles chega em casa, ele olha para a mulher no 2º andar da casa através das grades do corrimão da escada, dando a entender que ele está “preso” naquela vida; quando o clone chega na casa, ele olha para o 2º andar por cima dessa grade, pois ele está “livre”).

Outra coisa que chama a atenção é a forma como a narrativa é contada sob diversos pontos de vista, pois todos os capítulos começam retomando a história do anterior, só que acompanhando o ponto de vista de outro personagem, o que cansa um pouco e faz com que a história não avance muito. Mesmo assim, ‘Cara Cara’ é uma série divertida, bem rapidinha e que cumpre bem seu papel de entreter o público.

Inscrever-se

Notícias

Melanie Martinez lança ‘HADES’, seu quarto álbum de estúdio; Ouça!

A cantora e compositora Melanie Martinez acaba de lançar seu...

‘Bishop’: Astro de ‘Penny Dreadful’ é escalado para a nova série de SUSPENSE do Prime Video

Segundo o Deadline, Harry Treadaway ('Mr. Mercedes', 'Penny Dreadful') foi escalado...

Chris Lee é PROMOVIDO ao elenco regular da série ‘Tracker’

Segundo o Deadline, Chris Lee foi promovido ao elenco...
Assista também:


Janda Montenegro
Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.