Filme exibido na 49ª Mostra de São Paulo.
Há um certo desejo intrínseco ao ser humano em explorar o que existe na vida após a morte e qual o sentido da existência em si além de habitar o planeta Terra. E, quando essas questões são transpostas para o audiovisual, não há ninguém melhor que Charlie Kaufman para fazer isso: o realizador e romancista estadunidense se eternizou como um dos melhores e mais competentes storytellers do cinema moderno, tendo sido responsável por clássicos como ‘Quero Ser John Malkovich’, ‘Adaptação’, ‘Anomalisa’ e ‘Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças’ e infundindo cada uma de suas obras com uma melancolia ao mesmo tempo letárgica e esperançosa – destituindo o público dos conceitos engessados dos termos para mesclá-los em uma só unidade.
Para a 49ª Mostra de Cinema de São Paulo, Kaufman trouxe seu elogiado curta-metragem ‘Como Fotografar um Fantasma’, exibido também no Festival de Veneza, como introdução tanto para a aclamada animação de 2015 mencionada no parágrafo acima quanto do drama ‘Sirât’. E o resultado não poderia ser outro: em pouco menos de meia hora, Kaufman, aliando-se à roteirista Eva H.D., nos convida para uma jornada pela vida e pela morte, mostrando que, mesmo após nossa breve passagem no mundo terreno, certos ressentimentos, mágoas e frustrações podem nos prender ao plano material e impedir que o espírito consiga seguir em frente.
Valendo-se das explorações do antigo historiador grego Tucídides, Kaufman e Eva reformulam os conceitos beligerantes defendidos pelo filósofo e trazem a universalidade apocalíptica da guerra para uma honesta história que acompanha dois turistas mortos – um tradutor e um fotógrafo – que vagam pelas ruas de Atenas cruzando caminho com outros fantasmas que não “encontraram a luz”, por assim dizer, e permanecem atados a seus assuntos inacabados, sejam pessoais, interpessoais ou geracionais. Singrando pela assombrosa história da cidade, que inclui os épicos poemas declamados em praça pública à censura ditatorial dos anos 1970, a dupla percebe que o significado da vida e da beleza expande-se de infinitas formas e jaz em um estado eterno de permanência através da memória.
O curta é um arauto mnemônico que une incontáveis referências estéticas e culturais em um mesmo âmbito, como se estivessem fora da cronologia como a conhecemos. Aqui, Jessie Buckley e Josef Akiki interpretam os protagonistas e nos comovem apenas com olhares de relance, crispadas de lábio e uma penetrante química que não precisa de diálogos diretos e que é reafirmada com uma poética e potente narração que nos envolve como um acalento e um aviso, ao mesmo tempo. E, ainda que encarnem entidades imateriais e invisíveis, os dois se sentem mais vistos do que nunca e se aproximam pelos arrependimentos que os consomem mesmo no pós-morte.
Kaufman investe em uma estética já explorada em outros filmes, principalmente o incrível ‘Estou Pensando em Acabar com Tudo’, estrelado por Buckley, para fincar suas raízes no surrealismo e no realismo mágico – mergulhando nas pulsões oníricas que recobrem a lente das câmeras e trazendo gravações arquivais para compor sua reflexão sobre Atenas e sobre a mortalidade em si. O espetáculo visual, por sua vez, é pavimentado pelo imponente roteiro de Eva, que passa longe de esbarrar nas tradicionais explicações didáticas ao preferir um convite ao pensamento e à intriga, deixando que as mensagens em aberto sejam absorvidas pelos espectadores da forma que precisam.
‘Como Fotografar um Fantasma’ é mais um acerto para a carreira não apenas de Charlie Kaufman, mas dos outros nomes que compõe esse interessante e ambicioso projeto – mostrando que o cineasta tem várias narrativas para nos contar e que, projeto a projeto, busca se aperfeiçoar na arte de contar histórias.
