A década de 2010 foi especialmente efervescente para o Rio de Janeiro. No intervalo de dez anos a cidade (e o estado, como um todo) recebeu a visita do então Papa João Paulo II, recebeu os Jogos Militares, a Copa do Mundo, as Olimpíadas, sem contar inúmeros shows e eventos. Para tudo isso acontecer, muitas obras tiveram que acontecer, um monte de planejamento, organização, verbas para todos os lados, reformas, inaugurações: tudo para dar uma boa infraestrutura para todos os visitantes. E dentre tantas implantações, houve uma bem polêmica, que dividiu opiniões: a presença do exército nas ruas. Mais especificamente, nas favelas. Esse é o ponto de partida do documentário ‘Cheiro de Diesel’, que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 2 de abril.

O documentário ecoa o grito da favela contra a violência do Estado no Rio de Janeiro, registrando os traumas deixados pela ocupação de favelas e morros do Rio pelas Forças Armadas a partir de decretos presidenciais de Garantia da Lei e Ordem, as GLOs. No filme, moradores das favelas da Maré e da Penha, na zona norte da capital, e do Morro do Salgueiro, em São Gonçalo, relatam a rotina de medo e tensão durante a presença de soldados armados com fuzis e tanques de guerra nas ruas. As ocupações ocorreram entre 2014 e 2015 — período dos preparativos para a Copa do Mundo — e voltaram a acontecer entre 2017 e 2018. Ao longo do filme, moradores denunciam violações de direitos humanos, ameaças constantes e, em um depoimento marcante, o caso de tortura cometido contra moradores da Penha numa “sala vermelha”, em um quartel do Exército.
Já nos primeiros minutos do longa impressiona a coragem das imagens expostas, que nos fazem pensar que, se estamos vendo, é porque alguém teve o autocontrole para, apesar de tudo, fazer o registro delas. São registros de dentro, de moradores do Complexo da Maré (que reúne mais de 130 mil pessoas), de suas casas enquanto experenciam a entrada arbitrária de dezenas de militares em suas ruas. Partindo desse ponto de vista, o espectador é convidado a ver e pensar os fatos através de uma narrativa não explicitada pela mídia da época. E é isso que faz a diferença.

Para que a alma desse filme ficasse tão palpável na tela, o feliz encontro de duas grandes profissionais tornou o desafio em missão: a documentarista Natasha Neri, com a jornalista Gizele Martins. Natasha, com sua técnica de olhar e montar as imagens de maneira a construir uma narrativa coerente mesmo para quem não viveu essa história no Rio; e Gizele com sua bravura de ser uma voz da Maré, desde a época dos eventos lutando e divulgando as notícias dentro da comunidade.
Mesmo com todos os problemas de segurança pública que a cidade e o estado possuem, não dá para normalizar a presença de militares nas ruas de uma comunidade, que dirá por tanto tempo. Com essa conclusão, o documentário aponta o total despreparo dos ditos profissionais que foram destacados para a ocupação, em sua maioria, segundo relatos, jovens em início de carreira que, diante do poder repentino oriundo da ação, cresceram para cima dos moradores com todo tipo de violência.
A explicação para o título ‘Cheiro de Diesel’ é terrível e nos remota a outro tempo sombrio da história brasileira em que os mesmos atores provocaram violência gratuita contra cidadãos comuns. Esse documentário existe para mostrar que quando o evento da violência ocorre dentro da favela, ele não é noticiado ou não se é dado a mesma importância do que deram a eventos similares em outras cidades. Felizmente a Voz da Maré está aí, há mais de década, gritando que os corpos e vidas pretas importam.
Potente, importante e audacioso, ‘Cheiro de Diesel’ traz registros para que a gente não esqueça o perigo que é haver a presença militarizada nas ruas públicas, não importa quando.


