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Crítica com Spoilers | 2º capítulo de ‘IT: Bem-Vindos a Derry’ aposta no suspense e nas teorias conspiratórias


Cuidado: o texto a seguir contém spoilers da trama.

O universo de ‘IT: A Coisa’ continua em expansão com a recente estreia da série ‘Bem-Vindos a Derry’, que teve início com um dos melhores episódios do ano ao não poupar esforços em nos levar de volta à sombria e perigosa cidade de Derry. Banhada a sangue e gritos, o criador e diretor Andy Muschietti acertou nos pontos certos para nos deixar boquiabertos com mais um reino de terror controlado por uma perversa criatura que se alimenta do medo. E, conforme adentramos o segundo capítulo dessa ambiciosa pré-sequência, percebemos que ninguém está seguro e que é só uma questão de tempo até nada existir além do mais puro horror.

O capítulo anterior terminou da maneira mais inesperada possível ao se livrar de basicamente metade do elenco que acreditávamos ser o protagonista. Muschietti orquestrou uma violenta ópera que terminou com a tenebrosa entidade dilacerando os jovens Teddy, Phil e Susie, deixando apenas Lilly (Clara Stack) e Ronnie (Amanda Christine) vivas. Interrogadas pela polícia, as duas são forçadas a enfrentar um trauma insuperável, tentando compreender o que aconteceu e como aquilo foi possível – e isso não é tudo: Lilly conta a Marge (Matilda Lawler) o que aconteceu e enfrenta uma represália que a deixa isolada de todos, enquanto Ronnie enfrenta o prospecto do pai, projetista do cinema local, ir para a prisão como o principal suspeito no desaparecimento das crianças.



Enquanto as jovens lutam pela sobrevivência e são assombradas pela invisível criatura que se materializa em seus piores pesadelos e traumas, uma outra trama se desenrola com a chegada da família Hanlon a Derry – formada pelo Major Leroy (Jovan Adepo), que já nos foi apresentado no piloto, e por sua mulher e filho, Charlotte (Taylour Paige) e Will (Blake Cameron). Leroy, investigando o ataque que sofreu em seu dormitório, descobre uma artimanha política e militar liderada pelo General Shaw (James Remar) e pelo sensitivo soldado Dick Hallorann (Chris Chalk), que já deu as caras em outras produções inspiradas nos escritos de Stephen King: a busca por uma mortal arma que ataca o psicológico dos inimigos a ponto de destruí-los.

Assim como nos filmes, Muschietti sabe como construir uma atmosfera derradeira – e faz isso acompanhado do sólido roteiro assinado por Austin Guzman. Enquanto as cenas em que a entidade ataca, seja atacando Lilly através da morte do pai, seja colocando Ronnie no centro de um traumático pesadelo, são as mais bem pensadas, Guzman permite que o drama e o suspense tenham voz mais alta nos dois primeiros atos da iteração, deixando o terror em porções concentradas que exploram a capacidade ilimitada dessa criatura em aterrorizar suas vítimas. Mais do que isso, o roteirista mostra que não tem medo de apostar fichas altas ao colocar os protagonistas em um prospecto desesperançoso e nada favorável.

Se Guzman se mostra propenso a tomar riscos necessários para envolver os espectadores, o mesmo pode ser dito de Muschietti ao retornar à cadeira de diretor – e ele alcança sucesso ao tomar as decisões certas para o estilo cênico e para o ritmo. Mantendo a ambientação desconsolada do período da Guerra Fria e da popularização das teorias governamentais conspiratórias, as tramas convergem para um mesmo ponto, servindo como materialização da desmedida ambição humana e da necessidade de alcançar um poder destrutivo. Em outras palavras, as primeiras explicações para o que é essa entidade invisível começam a tomar forma de modo orgânico e inteligente.

A introdução de um novo núcleo, que abrange Charlotte e Will, já era esperada, principalmente pelas cenas dos trailers promocionais – e Paige e Cameron são selecionados para tapar os buracos deixados pela morte prematura dos outros personagens. Ambos os atores nutrem de uma química aplaudível tanto com Adepo quanto com os outros, nos envolvendo desde os primeiros segundos que aparecem em cena e nos ajudando a entender como a Coisa poderá atacá-los. E, ainda que haja alguns momentos de desequilíbrio criativo e técnico, as engrenagens permanecem lubrificadas o suficiente para garantir que sejamos engolfados nesse místico e mortal cosmos.

O segundo capítulo de ‘IT: Bem-Vindos a Derry’ mantém a sólida qualidade do episódio de estreia, por mais que reduza o sangrento frenesi para dar espaço a investidas que tangenciam o suspense psicológico e que fazem um ótimo uso do gore e dos thrillers para continuar a desenvolver a complexa personalidade dos protagonistas e coadjuvantes. E, se isso não o bastante para convencê-lo a assistir, garanto que a abertura dessa última semana é a melhor que verá em 2025.

Lembrando que o próximo episódio vai ao ar em 9 de novembro, na HBO e na HBO Max.

Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.
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