Crítica com Spoilers | 7º episódio de ‘IT: Bem-Vindos a Derry’ é um dos melhores e mais impressionantes do ano

Cuidado: muitos spoilers à frente.

‘IT: A Coisa’ é um dos universos mais conhecidos da cultura pop, tendo sido imortalizado pelos escritos do mestre do terror Stephen King. Ganhando uma adaptação nos anos 1990 e uma duologia cinematográfica comandada por Andy Muschietti na década passada, a narrativa de King foi eternizada para a nova geração e inclusive ganhou uma pré-sequência intitulada ‘IT: Bem-Vindos a Derry’. Ainda que causando um certo alvoroço quando anunciada, a produção tornou-se uma das melhores entradas da HBO | Max deste ano e, caminhando para um aguardado season finale, continua a nos encantar com pequenas obras-primas semanas.

O capítulo mais recente, intitulado “The Black Spot”, é mais uma prova do capricho extremo que a equipe por trás do spin-off possui no tocante a esse vibrante e perigoso cosmos. Trazendo Muschietti de volta à cadeira de direção e Jason Fuchs e Brad Caleb Kane responsáveis pelo roteiro, o episódio dá a cartada final com uma brutal exploração da condição humana, permeada por dramas pessoas e interpessoais que se aglutinam com uma das melhores mitologias da televisão contemporâneo – navegando por temas como perda, luto, vingança e ambição à medida que deixa um elenco estelar brilhar como nunca.

O episódio se inicia de maneira firme ao finalmente nos revelar o momento em que a entidade extraterrestre que exerce seu domínio sobre Derry tomou a forma de Pennywise, o palhaço dançante. O artista de circo que criou o personagem, conhecido pelo nome de Bob Gray (Bill Skarsgard), foi atraído pela mística força, cedendo aos poderes inimagináveis da criatura metamorfa, que o incorporou como parte de sua perigosa artimanha pelo fato do palhaço chamar a atenção das crianças – dessa forma, tornando-as presas mais fáceis. E, a partir de então, a Coisa transformou-se em uma força incontrolável e imparável, chegando até mesmo a fazer com que Ingrid (Madeleine Stowe) acreditasse que o pai estava vivo depois de tantas décadas desaparecido).

Pouco depois da icônica abertura ao som de “A Smile and a Ribbon”, somos arremessados de volta para o início dos anos 1960, onde as comemorações regadas a música e a bebida dos militares no Black Spot é interrompida pela chegada de Clint Bowers (Peter Outerbridge) e seus comparsas, que demandam a cabeça de Hank Grogan (Stephen Rider) ao ainda acreditar que ele foi responsável pelo sequestro e pelo consecutivo assassinato das crianças desaparecidas de Derry. Ateando fogo no estabelecimento, Clint inadvertidamente cria o cenário perfeito para que Pennywise ataque, completando seu ciclo de alimentação e colocando-o de volta à hibernação por mais 27 anos – isto é, até que os militares resolvam destruir um dos pilares que mantém a entidade presa em seu cativeiro, despertando-a para um último e fatal golpe.

“The Black Spot” é, por enquanto, a melhor entrada de ‘Bem-Vindos a Derry’, não apenas por permanecer no altíssimo nível de qualidade das semanas anteriores, mas por se mostrar disposto a ousar onde é possível e construir uma aula de storytelling e filmmaking que nos deixa em êxtase. Ora, Muschietti não pensa duas vezes antes de nos engolfar em um labirinto em chamas, arquitetando um espetacular plano-sequência que traz referências a James Wan e a Alfonso Cuarón, encarcerando os espectadores em meio a labaredas que consomem a tela e engolem os personagens em trágicas ruínas que foram causadas por uma natureza humana condenável e mortal.

Fuchs e Kane acompanham as empreitadas do realizador de maneira formidável e mostrando que os altos riscos muitas vezes coletam mais vítimas do que imaginávamos – com destaque à decisão de dar adeus a Rich (Arian S. Cartaya), que tem seu momento de glória ao salvar Marge (Matilda Lawler) do incêndio ao sacrificar a sua própria vida. E, a partir daí, os roteiristas abrem espaço para uma melancólica e tocante exploração do luto através de uma perspectiva mais jovem, colocando tanto Marge quanto Ronnie (Amanda Christine), Will (Blake Cameron James) e Lily (Clara Stack) em contato pela primeira vez com a dor da perda e com um amadurecimento mandatório que sucede a despedida de alguém próximo.

Os elementos técnicos são pareados com as pulsões narrativas que se desenrolam por mais de uma hora de tela: a trilha sonora de Benjamin Wallfisch, que trabalhou com Muschietti nos longas-metragens, expande-se em cordas dissonantes nos momentos de maior tensão, contraindo-se pelas cândidas notas do piano quando o roteiro resolve esquadrinhar o drama; Daniel Vilar, responsável pela fotografia, por vezes se afasta da costumeira construção de Pennywise como uma entidade intocável e opressora para fornecer doses enfadonhas de esperança que unem os personagens em um mesmo quadro para a batalha final que se aproxima – e tudo isso com a ajuda inestimável de atores e atrizes que irradiam talento.

O penúltimo capítulo de ‘IT: Bem-Vindos a Derry’ não apenas acerta na história e na direção, como se preocupa com cada detalhe para garantir um máximo aproveitamento pelo público – seja em investidas inesperadas que nos envolvem em um turbilhão de emoções e expectativas, seja pela carta de amor que cria a um dos melhores universos do panteão de Stephen King.

Lembrando que o último episódio da temporada vai ao ar amanhã, 14 de dezembro.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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