Em sinal de respeito, deixamos passar três dias da estreia do novo ‘Lilo e Stitch’ para permitir que os fãs e os ansiosos pudessem experimentar o filme sem ninguém estragar nada. Mas agora é hora de analisarmos criticamente o mais novo live-action da Disney que chegou essa semana aos cinemas.
Na nova versão, Lilo (Maia Kealoha, ótima) é uma menina arteira e muito sozinha. Enquanto sua irmã mais velha, Nani (Sydney Agudong) se desdobra em mil para dar conta da casa, cuidar da pequena e exercer seu trabalho num resort para, assim, poder pagar as contas, Lilo desbrava os recantos do Havaí sozinha, sem supervisão, o que muitas vezes gera confusão. Depois de empurrar propositalmente uma colega na apresentação de hula, Lilo acende um alerta para Nani de que as coisas estão fugindo ao controle. Naquela mesma noite, Lilo faz um pedido para uma estrela cadente: quer ter um melhor amigo. No dia seguinte, seu caminho se cruza com o de Stitch (na voz de Chris Sanders), um ser extraterrestre semelhante a um cachorro, e imediatamente os dois iniciam uma amizade de cumplicidade e muitas aventuras.

Mais do que uma mera adaptação com seres humanos da mesma história, o novo ‘Lilo e Stitch’ tem uma mudança fundamental: ele é uma nova versão da história. Isso significa que não vemos o mesmo enredo tal qual – há mudanças significativas que surpreendem, mas que muitos fãs podem se sentir confusos.
A mudança mais significativa no roteiro de Chris Kekaniokalani Bright, Mike Van Waes e Chris Sanders (o mesmo que dubla o Stitch) está no eixo da história: se na versão animada o centro da trama era as estripulias de Stitch se adaptando ao mundo de Lilo (e, consequentemente, se tornando amiga dela), na nova versão o eixo está em Nani, que ganha muito mais tempo de tela e, consequentemente, maior desenvolvimento. Assim, se na versão animada o clima era de alegria e humor numa aventura fofa, agora o drama toma conta, afinal, a vida de Nani está de cabeça pra baixo.

Por um lado, isso é um grande acerto do filme de Dean Fleischer Camp, afinal, o público original cresceu e agora consegue se conectar muito mais com os problemas de Nani (desemprego, boletos, a assistente social que vai tirar a guarda da irmã, dívidas, a casa em ruínas, os sonhos que ficam pra trás, a falta de tempo para um relacionamento), e a gente realmente sai do cinema com muita pena da jovem, que faz de um tudo para as coisas darem certo. Talvez o incômodo fique exatamente nesta escolha: para que Nani ganhe profundidade, Stitch, e mesmo Lilo, acabam ganhando tons de antagonistas, afinal, enquanto a coitada da Nani tenta arrumar um emprego (porque os dois causaram sua demissão), a dupla toca o terror quebrando tudo, causando stress, se comportando como duas criaturas mimadas e indisciplinadas. Se no desenho a gente acha graça disso, na nova versão essa sequência soa como birra.
Mesmo assim, Stitch continua fofo e agradável aos olhos, mas algumas de suas melhores cenas não acontecem na nova versão, como ele aprendendo o hula e ele vestido de Elvis (só aparece nos créditos). Até mesmo a icônica cena de Stitch tocando o som da vitrola perdeu o impacto, pois Nani nem olha para ele neste momento. Assim, o arco de disciplina de Stitch diminui.
Essa mudança no eixo da história tira o peso cômico da aventura e aumenta a carga emocional da nova versão, o que faz com que surpreendentemente muitos de nós saia chorando do cinema. E com razão: se hoje somos adultos e nos espelhamos no desespero de Nani, toda a sequência final acaba batendo muito mais forte no peito dos adultos.

A segunda modificação impactante é o condensamento da vilania toda em Jumba (o monótono Zach Galifianakis), o que acaba transformando seu personagem num obcecado sem muito sentido; consequentemente, o carisma de Pleakley (muito embora Billy Magnussen entregue uma performance destoante) aumenta.
Entretanto, não se engane: ‘Lilo e Stitch’ é um bom filme. Só que pelos motivos diferentes do anterior, e pelos motivos diferentes do que o espectador esperava. É como se a Disney tivesse feito uma leitura crítica e realista de sua própria produção e tivesse chegado à conclusão de que, em live-action, a brincadeira tinha que ficar séria. E ficou lindo, profundo, surpreendentemente emocionante, deixando o colorido da brincadeira de lado e amadurecendo com consciência crítica sua história e seus personagens. Uma boa escolha, para fazer ambas as suas obras dialogarem com seu público em momentos diferentes de suas vidas.

