Crítica com Spoilers | ‘O Drama’ traz Robert Pattinson e Zendaya navegando pelas complexidades da moral



Cuidado: muitos spoilers à frente.

Uma pessoa é realmente capaz de mudar? Somos capazes de amar alguém incondicionalmente?

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São essas as duas perguntas principais que O Drama, nova dramédia romântica estrelada pelos premiados atores Zendaya e Robert Pattinson. Dirigido e escrito por Kristoffer Borgli, o longa-metragem, que chega aos cinemas nacionais no próximo dia 9 de abril, é uma insana e hilária aventura pela complexidade do ser humano e pela “área cinzenta” que se estende entre o moral e o imoral. Acompanhando uma tendência crescente do cenário cinematográfico em trazer temas intrincados como objeto de análise em uma atmosfera mais despojada e descompensada (como o ótimo ‘Amores à Parte’), a ambiciosa e controversa produção é indesculpavelmente deliciosa do começo ao fim.

A trama é centrada em Charlie Thompson (Pattinson) e Emma Harwood (Zendaya), um casal apaixonado que está prestes a firmar matrimônio. Ambos se conheceram da maneira mais inesperada possível, quando Charlie resolveu dar em cima de Emma numa cafeteria – tentando chamar a atenção dela sem saber que ela é surda de um lado. Imediatamente conectando-se pela ocasionalidade inexplicável do encontro, eles se apaixonaram e agora estão prontos para dar o próximo passo. Porém, uma revelação ainda mais surpreendente os coloca à prova, levando-os em uma jornada que tenta responder a seguinte pergunta: o quão forte é, de verdade, o suposto amor verdadeiro?

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Durante a degustação para decidir o buffet da cerimônia, Charlie e Emma, reunidos com seus amigos Mike (Mamoudou Athie) e Rachel (Alana Haim), decidem participar de um jogo em que tem que revelar a pior coisa que já fizeram. Entre cyberbullying e prender um garoto num armário, ninguém de fato esperava que Emma já tivesse planejado um ataque terrorista à escola que frequentava quando adolescente. Causando uma grande comoção entre os presentes, principalmente em Rachel, cuja prima ficou paraplégica como resultado de um tiroteio em massa, a história de Emma começa a levantar questões e mais questões na mente de Charlie, que passa a enxergá-la como uma psicopata em potencial e que, a qualquer momento, pode explodir.

Como podemos ver, Borgli não poupa esforços em colocar temas densos e problemáticos no centro de uma narrativa ousada e que com certeza dividirá o público – com direito a textos e mais textos em redes sociais que alimentem essa aparente “imoralidade” do projeto. Porém, o realizador está preocupado em mostrar até onde esses abstratos conceitos podem ser esticados, recusando-se a tratar qualquer situação que exista no enredo dentro de um espectro maniqueísta. Não existe a “bondade” e a “maldade” inerentes, e sim um enredamento de situações particulares que, aqui, são elevadas à enésima potência.

É impossível tratar Emma como uma “mocinha” ou uma “vilã”, mas é nesse impasse que Borgli arremessa Charlie. Por vezes, o personagem encarnado por Pattinson pode ser visto como o verdadeiro protagonista desse tour-de-force nada convencional, mas suas dúvidas só existem pela projeção que faz de suas preocupações e seus traumas sobre a noiva. As atitudes dele, inclusive, começam a ressoar em Emma, que arrepende-se amargamente de ter contado algo que nunca havia revelado a ninguém e que, a partir de então, a leva a uma paranoia de que Charlie pode deixá-la e que a história pode se espalhar. Nesse irruptivo contexto, surgem as duas perguntas que iniciam o texto – e a forma como o diretor escolhe dois elementos totalmente opostos para procurar uma resposta inexistente é arriscada, mas audaciosa.

Zendaya e Pattinson fazem um trabalho primoroso com seus respectivos personagens, exalando uma química fabulosa enquanto caminham com as próprias pernas em seus arcos de arrependimento e desconfiança. Aqui, eles tomam as rédeas de uma análise descontraída que singra pelo existencialismo da maneira mais exagerada possível: Emma é livre e responsável por criar seu próprio significado e, dessa maneira, agiu autenticamente em um mundo absurdo; porém, esse significado não é imutável e, à medida que um novo valor foi criado, ela passou por essa transformação moral. Em contraposição, a mesma moral universalizante é colocada em xeque pelas dúvidas que Charlie passa a ter sobre alguém que acreditava conhecer.

A ideia do filme não é fornecer uma resposta sólida e engessada – e isso fica claro com a tétrica trilha sonora assinada por Daniel Pemberton e pela frenética montagem de Joshua Raymond Lee (que nos ajuda a entrar nas crescentes paranoias dos protagonistas ao deixá-los bastante questionáveis). E, eventualmente, a história entrega um final que, apesar de um tanto quanto previsível, é a culminação perfeita da profunda jornada que Emma e Charlie enfrentam em breves 105 minutos de tela.

O Drama marca mais um acerto dentro da ainda breve carreira de Kristoffer Borgli, ampliando seu universo de sátiras tragicômicas humanas que teve início com os ótimos ‘Doente de Mim Mesma’ e ‘O Homem dos Sonhos’. Apoiando-se no talento nato de Zendaya e Robert Pattinson, o longa com certeza causará comoção ao chegar aos cinemas de todo o mundo e dividirá os espectadores em meio a uma singular e atrevida beleza.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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