A crítica em questão analisa os dois primeiros episódios da série.
É um fato dizer que a Marvel Studios e o cenário de super-heróis em si vêm passando por uma tristonha fadiga criativa – vivendo mais de easter eggs e fan-services do que de boas histórias que realmente encantem o público e apresentem facetas novas de um gênero bastante conhecido e explorado. É claro que, vez ou outra, produções interessantes nos chamam a atenção pela originalidade, como foi o caso da recente série ‘Agatha Desde Sempre’, que levou vários prêmios para casa, e do ótimo ‘Thunderbolts*’, que infelizmente não fez o sucesso de bilheteria que prometia.
Em meio a acertos e erros, o Universo Cinemático Marvel parece não estar conseguindo acertar como deveria – e isso não se deve inteiramente a tentativas falhas, mas a um óbvio boicote promovido por grupos que permanecem em resistência a personagens novos e à mais ínfima centelha de representatividade – seja em relação a qualquer minoria social. ‘Coração de Ferro’, a mais nova série desse panteão super-heroico, vem sofrendo do mesmo mal desde seu anúncio e desde o lançamento dos trailers promocionais, tendo chegado a receber um review-bombing nos agregadores de críticas antes mesmo de sua estreia oficial no Disney+. De qualquer forma, isso não muda o fato de que, através de uma perspectiva diferenciada, o projeto, cujos três primeiros episódios já estão disponíveis na plataforma de streaming, é prático e funcional dentro de seus limites (e com certeza irá atrair a ira de haters sem fundamentação qualquer).

A trama acompanha Riri Williams, uma jovem supergênia que fez sua estreia no MCU em ‘Pantera Negra: Wakanda para Sempre’ e que volta às telas através de Dominique Thorne em uma sólida performance. Aqui, ela retorna para sua cidade natal, Chicago, após ser expulsa do MIT em virtude de inúmeros problemas burocráticos – mas não antes de colocar as mãos em uma armadura tecnológica que construiu, levando-a consigo para dar continuidade a seus projetos. Marcada pela trágica morte do padrasto e da melhor amiga, Natalie (Lyric Ross), Riri se vê em um beco sem saída até cruzar caminho com Capuz (Anthony Ramos), um homem misterioso que lhe apresenta a junção entre magia e ciência – abrindo possibilidades únicas e arremessando-a para um mundo de perigos inimagináveis.
De forma geral, a série funciona mesmo dentro de limites perceptíveis – mas alguns pontos devem ser levados em consideração: logo de cara, percebemos que a construção do projeto é pautada em uma atmosfera mais urban, por assim dizer, não apenas centrada em uma conhecida metrópole, como destinado a um público específico, trazendo páginas emprestadas de produções como ‘Atlanta’ para erguer uma ambientação peculiar e que nutre de sua própria identidade. E, levando isso em consideração, é notável como o caráter dramático da obra é sutil, trazendo uma leveza que há bastante tempo não víamos dentro do MCU e garantindo que essa narrativa não seja apenas mais um projeto mercadológico qualquer.

Em meio a essa ideia, certos elementos funcionam e outros não. De um lado, temos um fabuloso elenco que se entrega de corpo e alma a seus respectivos personagens – incluindo Thorne em seu glorioso e melancólico retorno como Riri Williams, singrando por uma vida conturbada que, na verdade, é apenas o desejo de se destacar e de mudar o mundo (por mais que o caminho não seja fácil); Ramos apresentando um novo lado de sua carreira performática como Capuz, alter-ego de Parker Robbins, ainda que não use e abuse do potencial do personagem; Ross em uma entrada única como Natalie, retornando como a IA acoplada ao traje de Riri e trazendo um lado cômico bem colocado; e nomes que incluem Shea Coulée, Sonia Denis, Shakira Barrera e Eric André.
De outro lado, há problemas de ritmo que permeiam o capítulo de estreia, emergindo como uma espécie de “crime imperdoável” por não conseguir nos cativar a princípio. A história desenrola-se de maneira unidimensional, com cenas bem orquestradas, mas que não se arriscam em qualquer momento. Sam Bailey, responsável pelos três primeiros episódios, assume a cadeira de direção e sabe como apresentar ou representar Riri ao público; entretanto, a realizadora escorrega em algumas escolhas repetitivas que são aparadas apenas no segundo capítulo – o que é interessante, considerando que ficamos mais engajados para descobrir os próximos eventos e a consagração oficial da personagem dentro do MCU.

‘Coração de Ferro’ é uma boa série e ganha pontos ao não se valer de convencionalismos constantes de tantas obras do gênero super-heroico, mesmo que acompanhada de óbvios deslizes. Mantendo-se fiel ao que deseja entregar ao público, a nova atração da Marvel Studios é prática e funcional como deve ser – e em momento algum deseja dar um passo maior que a perna.
Lembrando que os três primeiros capítulos da série já estão disponíveis no Disney+.

