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Crítica | Criaturas do Senhor – Paul Mescal Retorna em Dramático Suspense Irlandês


O frenesi das grandes cidades faz com que nós, espectadores, desejamos e vejamos quase que apenas filmes e séries que sigam o mesmo ritmo cosmopolita, com muita luz, muita informação e muita coisa acontecendo ao mesmo tempo – por vezes, tantas, que nós até nos perdemos. Entretanto, quando as narrativas saem dos grandes centros urbanos e se deslocam para as outras partes de um país há uma mudança bastante evidentes na forma como as histórias se desenvolvem na telona. Um bom exemplo disso que falamos é o novo filme irlandês ‘Criaturas do Senhor’, que chega a partir dessa semana nos cinemas brasileiros.

Em um pequeno vilarejo na costa da Irlanda, todo mundo se conhece e todo mundo trabalha em função da pesca, seja de peixe, de ostras ou de outros animais. Quando, repentinamente, Brian (Paul Mescal) volta para casa de seus pais, após um longo e desconhecido o período na Austrália, sua mãe Aileen (Emily Watson) fica super feliz com o seu retorno, assim como todas as pessoas da comunidade. Entretanto, após um crime acontecer durante uma madrugada e todas as pessoas virarem as costas, Emily terá que ouvir seu próprio senso de certo e errado para decidir em quem acreditar, mesmo que todo mundo se conheça naquela vila.



Nesse ambiente e nesse contexto, o roteiro de Fodhla Cronin O’Reily e Shane Crowley também demora em se desenvolver, apesar das ressalvas. Só em quase uma hora de exibição que finalmente o supracitado crime acontece – na verdade, tirando as primeiras duas cenas, que inclui o retorno de Brian à comunidade, literalmente mais nada acontece ao longo da projeção, nós apenas ficamos acompanhando os personagens se reconectando com o presente enquanto rememoram questões do passado, para o bem ou para o mal. O ritmo mais devagar somados do drama à uma iluminação mais baixa e à falta de acontecimentos pode dar indícios de que a produção era uma boa ideia que precisava ser melhor desenvolvida, um argumento que precisava ter mais elementos para rechear o todo.

As diretoras Saela Davis e Anna Rose Holmer se empenham em centrar toda a atenção do longa na personagem Aileen, pois é através das emoções e dos seus pensamentos dessa protagonista, que não são compartilhados com o espectador, é que nós podemos acompanhar a evolução do suspense e a tensão que vai se desenrolando a partir da metade do filme. Ainda assim, a resolução da coisa toda poderia ter ficado um pouco mais amarrada, menos à deriva nessa cidade pesqueira que se apresenta como a parte dos acontecimentos do mundo, isolada de tudo.

Produzida pela renomada A24 (responsável por sucessos do terror como ‘Hereditário’ e ‘Pearl’) e filmado na Irlanda, numa coprodução desse país com os Estados Unidos, ‘Criaturas do Senhor’ é um filme bem fotografado, que traz o indicado ao Oscar de Melhor Ator este ano, Paul Mescal, novamente dizendo mais com suas expressões do que com os seus sussurros. Um filme dramático, que se desenrola em banho-maria em um suspense a partir da imprevisibilidade de seus próprios personagens – como ocorre na própria vida.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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