Produções que discutem política já foram feitas de várias maneiras e estilos, seja defendendo uma causa histórica, como o recente Marighella (2021), expondo amplamente o universo sociopolítico, o caso de Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010), ou pegando o recorte de um microcosmo que expressa a patologia existente nesse meio, algo que está estabelecido em escala nacional, vide o contagiante Bacurau (2019). E uma das estreias dessa semana, Curral, filme pernambucano dirigido por Marcelo Brennand, segue claramente a linha deste último citado, mas segue através de uma linguagem mais sutil e natural, digamos assim.

Coincidentemente ou não, o longa é protagonista por Thomás Aquino, ator que também foi um dos principais nomes do filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, onde interpretou o sensacional Pacote. Já em Curral Aquino vive Chico Caixa, sujeito trabalhador que dirige um caminhão pipa fornecendo água para sua comunidade, o município de Gravatá, localizado no Agreste de Pernambuco. Enfrentando recorrentes problemas devido à escassez da água, Chico se junta ao amigo Joel – Rodrigo García, o Paulete de Tatuagem (2013) – que está numa campanha política para concorrer ao cargo de vereador. Chico reluta, já que nunca quis entrar nessas maracutaias, porém se ver na obrigação ao notar que os moradores dependem dele e do amigo Joel, que aparentemente está disposto a fazer diferente, por também por também fazer parte da comunidade.

Marcelo Brennand, Thomás Aquino e Rodrigo García

A partir daí, a dupla de protagonistas Chico e Joel vai sendo desnudada e se transformando a cada nova situação apresentada. Chico vai, pouco a pouco, abrindo mão dos seus limites morais e entendendo na marra que, para chegar onde quer, precisa vender parte da sua alma. Ao contrário de Joel que rapidamente parece aceitar essas novas condições, se transformando no pior tipo de canalha que abriga os variados cargos públicos do Brasil. No entanto o maior mérito de Marcelo Brennand é conferir uma realidade quase que documental, tanto na realização de grandes cenas quanto na relação e nos diálogos dos personagens, desde aqueles que são destaques até os eleitores que fazem pequenas participações – por sinal, a maioria dessas pessoas não são atores profissionais, mas sim moradores de Gravatá que participaram das filmagens a pedido do próprio diretor.

O feito do cineasta e a utilização dessas figuras reais não é por acaso, Brennand tem como trabalho precedente o premiado documentário Porta a Porta (2011), obra que acompanhou uma disputa real por votos exatamente na cidade de Gravatá, e que acabou servindo de inspiração para o seu ficcional Curral. Vemos ali a pobreza social escancarada, com pessoas que cobram apenas o básico para sobreviver e passam por uma situação que chega próximo a miserabilidade que “era” enxergada anos atrás nas inúmeras matérias sobre os sertões brasileiros, com crianças cadavéricas e os pais tendo que se virar como podem. Uma realidade cada vez mais presente na região nordeste que, além de ser ignorada em contexto nacional, também é corroída pelos ratos conterrâneos que não fazem cerimonia ao virar as cotas para a população.



A nível de produção, Curral também não faz feio e consegue retratar, com fidelidade, o clima de eleição que domina esse tipo de cidade durante o período. Bandeirolas e figurinos multicores, trios elétricos enormes com jingles toscos próprios e toda população da cidade andando e festejando pelas ruas imprimem perfeitamente a disputa eleitoral dos interiores nordestinos. Apostando em planos longos, quase que sem cortes, Marcelo Brennand cria a sensação de estarmos acompanhando uma equipe de reportagem no trajeto de verdadeiras passeatas políticas. É claro que toda verossimilhança não seria possível se Rodrigo García não conseguisse tornar o seu personagem identificável, mas, conhecendo bem a terra, o ator é irretocável ao encanar precisamente com Joel o sotaque dos jovens políticos locais que tentam, tropegamente, mesclar o linguajar da capital com o àquele falado nas cidades interioranas.

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Contudo, mesmo com outros bons andamentos, como o caso que envolve alguns radialistas ou mesmo tiradas cômicas super inspiradas, o grande arco dramático dessa história reside justamente no personagem de Thomás Aquino, pois, como já falamos, o seu Chico passa por diversas transformações até chegar no que podemos chamar de desespero catártico, clímax que encerra o longa de maneira brilhante. Um momento apoteótico que deve emocionar e deixar um pequeno ar fresco em meio a todo fatalismo e a trágica previsão do ciclo que infelizmente deve ainda se repetir por muito tempo. De modo que Curral é um filme modesto e eficiente, que executa bem sua função de externar um pouco da crueldade presente nos pequenos cenários políticos espalhados pelos brasis esquecidos das regiões menos visadas da nação.

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