Crítica de Álbum | True Blue – Um álbum inspirador e reconfortante

Crítica de Álbum | True Blue – Um álbum inspirador e reconfortante

Nota:


Em seu terceiro álbum de estúdio, Madonna resolve mergulhar com ainda mais força nos temas que já havia explorado em investidas anteriores e, eventualmente, culmina em uma de suas melhores obras, intitulada True Blue. Dedicado, à época, ao seu marido Sean Penn, o escopo musical traz uma premissa otimista e reconfortante que estende-se ao longo de nove belíssimas faixas, procurando, em cada uma delas, encontrar um pano de fundo diferenciado e aglutinando diversos estilos em um mesmo lugar. É claro que, considerando que a multiplicidade narrativa poderia culminar em um saturado disco, a artista também encontrou gigantesco sucesso pela fluidez tanto de sua voz quanto pelos hits dançantes e envolventes.

A mais nova aventura da cantora abre com “Papa Don’t Preach”, uma contraditória canção que se inicia com clássicos violoncelos e violinos e, em um inesperado ápice, encontram-se em meio aos sintetizadores e a um baixo eletrônico deliciosamente bem estruturado. A utilização de elementos do electro-pop, porém, não insurge com originalidade, ainda mais levando em conta que Madonna já os utilizou em produções antecedentes; o que nos chama a atenção é que, afastando-se de sua rebeldia soubrette (vide Like a Virgin) e procurando uma estabilização aplaudível que abre espaço para um mezzosoprano menos afetado e mais coeso. Não estou dizendo que, em um passado remoto, a voz da artista não tenha funcionado; digo que, dentro das premissas que nos apresenta, tais escolhas ficariam fragmentadas demais.

A música em questão funciona em um âmbito extracósmico, dialogando, em precedência e procedência, com “La Isla Bonita”. Enquanto “Papa” relata as angústias de uma jovem garota por ter engravidado fora de um casamento, a track em questão analisa de forma irônica e chocante os motivos de tal “irresponsabilidade”, por assim dizer. “Noite passada, sonhei com São Pedro” é a ambígua dúbia frase que, a priori, revela a paixão do eu lírico pela campesina atmosfera sul-americana, reafirmada pelos instrumentais latinos que expandem-se em harmônicas, maracas e notas de um acústico violão que aumentam sua complexidade mais do que poderíamos imaginar. O verso que une ambas as rendições, por mais separadas que estejam, resume-se em “onde uma garota ama um garoto, e um garoto, uma garota”.

O ritmo latino volta com a explícita declaração de amor “Love Makes the World Go Round”, na qual Madonna se afasta da atmosfera onírica supracitada e mergulha em uma dançante e memorável canção que funciona em uma totalidade incrível para encerrar o CD. Aqui, os tons próprios da cultura latino-americana se fundem com os sintetizadores e com o teclado eletrônico, iniciando de forma levemente convencional até explodirem num otimista chorus que diz “é fácil esquecer se você não ouve o som”, concluindo-se na repetição do verso-título.

É notável analisar de que forma a nova entrega de uma das maiores vozes da história da música alcança um patamar bastante considerável que supera seus trabalhos anteriores – e que, anacronicamente, voltaria a ser superado poucos anos depois. Porém, não podemos deixar de citar seus poucos defeitos, que, no caso, restringem-se a duas faixas em questão: a primeira, “Where’s the Party”, ganha um apreço por sua construção nostálgica e pelas habilidosas lyrics que fazem bom uso de uma repetição proposital; entretanto, “Jimmy Jimmy”, a track que antecede o final, nos passa uma sensação reciclada, principalmente por se iniciar com as mesmas batidas demarcadas e agudas do teclado eletrônico. Mesmo assim, é um fato dizer que nenhuma das músicas peca em muito em dialogar uma com a outra, mantendo-se em um nível bom o suficiente para nos envolver.

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Felizmente, os profusos ápices do disco conseguem falar muito mais alto: temos, por exemplo, “White Heat”, que nos leva de volta ao final dos anos 1940 com o prelúdio retirado de Fúria Sanguinária narrado por James Cagney. O próprio diálogo ecoante já prenuncia a entrada de uma expressiva guitarra que combina-se com os conhecidos elementos do electro-pop“Live to Tell”, por sua vez, funciona como uma melódica e etérea balada que traz consigo uma trilha surpreendentemente visual. Apesar da manutenção de uma linearidade um tanto quanto incômoda, são os múltiplos instrumentos combinados em um único lugar que ganham nossa total atenção – aliados ao verso que divide o refrão, ganhando força antes do terceiro ato.

A faixa-título, todavia, é a que mais nos soa familiar – e talvez a que mais revele as influências que Madonna abraçou para tornar-se a artista que adoramos. Além da reconfortante letra, a voz da cantora abandona as afetações de outrora de vez, fazendo declamações que nos recordam do dance-pop dos anos 1960, mais precisamente do grupo conhecido por Motown Girls; aliás, ela não pensa duas vezes antes de nos lançar em uma viagem movida por batidas bem demarcadas e vocais precisos e sutis.

True Blue é um memorável álbum e uma incrível adição à ainda novata carreira de Madonna. Ganhando inúmeras revisitações nos anos que a seguiriam e inclusive servindo de inspiração para seu conterrâneo Michael Jackson, essa epopeia romântica é extremamente original e alcança sucesso em meio a uma possível ruína. Afinal, são poucos os artistas que conseguem unir com sabedoria e coesão inúmeros gêneros em um mesmo lugar – e Madonna fez isso com exímia cautela.

Nota por faixa:

  • Papa Don’t Preach – 4,5/5
  • Open Your Heart – 4,5/5
  • White Heat – 5/5
  • Live to Tell – 4,5/5
  • Where’s the Party – 4/5
  • True Blue – 5/5
  • La Isla Bonita – 5/5
  • Jimmy Jimmy – 3,5/5
  • Love Makes the World Go Round – 4,5/5


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