Crítica de Temporada | ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ é uma sublime adição ao universo ‘Game of Thrones’







Em 2011, os escritos do aclamado e prestigiado autor George R.R. Martin ganharam vida nas telinhas com a adaptação Game of Thrones – que, em pouco tempo, não apenas se tornou uma das séries mais elogiadas da história, como se transformou em um projeto seminal para os dramas fantásticos, acompanhando o legado deixado pela saga ‘O Senhor dos Anéis’. Após oito temporadas, a produção chegou ao fim, mas não antes de expandir seu universo com a pré-sequência A Casa do Dragão, que encontrou sucesso similar entre os espectadores e os críticos ao focar no auge e na decadência da Casa Targaryen.

Este ano, fomos convidados mais uma vez a voltar para Westeros com a ambicioso ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’, adaptação de ‘Os Contos de Dunk e Egg’ que se destrinchou em seis breves episódios supervisionados por Martin e pelo realizador Ira Parker – e que nos encantou com uma instigante narrativa centrada em Ser Duncan, o Alto (Peter Claffey), um honesto Cavaleiro Andante com ganas de ser celebrado por sua vocação e de pertencer a algum séquito; e em Aegon Targaryen (Dexter Sol Ansell), apelidado carinhosamente de Egg, que esconde sua verdadeira identidade para auxiliar Ser Duncan em sua empreitada, assumindo o posto de fiel escudeiro. E, navegando com calma pela atribulada atmosfera política e social de Westeros, o spin-off chegou ao fim recentemente e já se sagra como uma das melhores produções audiovisuais de 2026.

Todo o cerne da obra volta-se para os clássicos tropos da Jornada do Herói, como exploradas por Joseph Campbell em seu influente manual. É claro que Parker, aliando-se a um time de hábeis diretores e roteiristas, bebe das fórmulas para remodelá-las a seu bel-prazer, garantindo que os ritos de passagem clássicos do herói mítico estejam em sintonia com o explosivo e sangrento universo de Martin. Dessa forma, Dunk e Egg se reúnem em caminhos similares que os arremessam ao “cruzamento do limiar” em arcos paralelos e, ao mesmo tempo, convergentes dentro do que representam um para o outro e para si próprios. De um lado, Dunk deseja entrar para o Torneio de Vaufreixo, a fim de honrar a memória de seu falecido mestre, Ser Arlan (Danny Webb); de outro, Egg visa se afastar do legado de perdição da Casa Targaryen, vendo em Dunk a possibilidade de ser um escudeiro e ajudá-lo.

Os dois protagonistas partem de um lugar-comum – um espaço de marginalização por não se encaixarem em quaisquer grupos que se espalham por Vaufreixo e pelas justas que acontecem. E é justamente nessa ambientação que eles encontram semelhanças entre si que podem beneficiá-los de alguma maneira. Dunk é a representação máxima do caráter mítico e epopeico do herói clássico, pincelado com uma ingenuidade que em momento algum se transforma em fraqueza, e sim é traduzida em uma necessidade ímpar de proteger os mais fracos e inocentes. Eventualmente, sua benevolência o coloca em disputa com o psicótico e impiedoso Aerion Targaryen (Finn Bennett), irmão de Egg, que o desafia para uma batalha até a morte a fim de que o Cavaleiro Andante prove sua inocência após ousar desmoralizar o nome da Casa do Dragão.

A configuração do spin-off tem um comportamento diferente de suas conterrâneas, deixando de lado o aspecto mais incisivo, ao menos nos primeiros episódios, para oferecer uma perspectiva mais suave e fabulesca, por assim dizer: à medida que algumas assinaturas aparecem logo de cara, o uso de uma trilha sonora mais altiva e a construção do laço entre Dunk e Egg mergulha em uma ambientação de “conto de fadas” – que prenuncia a derradeira obscuridade do quarto episódio, “The Seven”, e o clímax do irretocável “In The Name of the Mother” (facilmente um dos melhores capítulos de todo o panteão Game of Thrones).



Parker tem uma ideia muito clara por trás da adaptação e mostra, com as duas iterações mencionadas no parágrafo acima, que Westeros está imbuído em um ciclo interminável de guerra e destruição – como Dunk percebe quando mais jovem, quando tentava sobreviver ao lado da ardilosa e contundente Rafe (Chloe Lea), antes de ser tutelado por Ser Arlan. Não é surpresa que mesmo o vibrante e festivo Torneio se renda às lutas de poder e à mandatória exigência de reafirmar um status “divino”, culminando na empoeirada e labiríntica sequência do Julgamento dos Sete, que denota a força de vontade de Dunk e a maneira como o Cavaleiro existe em um lugar que não comporta as engrenagens regentes do mundo que conhece.

O showrunner sabe como usar os breves 30 minutos de cada episódio a fim de não criar excessos descartáveis ou resoluções apressadas: ao alistar Owen Harris e Sarah Adina Smith como diretores, ambos fazendo sua estreia no universo Game of Thrones, ele mostra que ainda há muitas histórias a serem contadas – e faz isso com a presença implacável de Claffey e Ansell, e de nomes como explodem em cena, como Bertie Carvel (Baelor Targaryen), Sam Spruell (Maekar Targaryen), Daniel Ings (Lyonel Baratheon) e Shaun Thomas (Raymun Fossoway), apenas para citar alguns atores que se entregam de corpo e alma a um dos melhores enredos televisivos do ano.

Em breves seis episódios, ‘O Cavaleiro dos Sete Reinos’ reafirma a genialidade de George R.R. Martin no cenário da fantasia e da aventura, expandindo esse ígneo cosmos de maneira aplaudível e capturando tanto os fãs de longa data quanto os novos – que podem se deliciar em meio a incríveis cenas de combate e a personagens complexos que nos encantam logos nos primeiros minutos.

Lembrando que a série está disponível na HBO Max.

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Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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