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Crítica | Desalma – Misticismo e Bruxaria na nova e TENSA série de Terror da Globoplay


Há cerca de dois anos a plataforma Globoplay, centrada em produções nacionais da Rede Globo e afiliadas, começou a investir em produzir conteúdo de exclusividade para a plataforma – séries, filmes e especiais que não seriam exibidos em rede aberta, disponíveis apenas no seu streaming. Nessa leva de novos investimentos foi anunciado a série ‘Desalma’, que contou até mesmo com um painel exclusivo na última edição presencial da CCXP, em 2019. Agora, quase um ano depois e com o hype lá em cima – afinal, a proposta era uma série de terror – finalmente ‘Desalma’ chega aos assinantes da Globoplay.

Com dez episódios de cerca de quarenta minutos o enredo de ‘Desalma’ costura duas histórias que ocorreram em um intervalo de 30 anos. Em 1988 temos o núcleo dos jovens Roman Skavronski (Eduardo Borelli), Aleksey (Nicolas Vargas), Melissa (Camila Botelho), Halyna (Anna Melo), Bóris Burko (Lucas Soares) e Ignes (Valentina Ghiorzi), que estudam juntos na pequena cidade de Brigida, em algum lugar entre Santa Catarina e Paraná. Em Brigida vivem famílias descendentes de ucranianos e russos que vieram para o Brasil no passado, mas que, ainda hoje, mantêm as características e tradições herdadas daquele país. Roman namora Halyna, a filha da bruxa Haia (Cássia Kis), mas, do nada, termina com ela, às vésperas da celebração da Ivana Kupala, uma festa mística que remete a forças da natureza. É nessa noite que Halyna morre afogada em um lago, e o destino da cidade fica selado para sempre. Trinta anos depois, Giovana (Maria Ribeiro), viúva de Bóris (Ismael Caneppele), se muda para Brigida para tentar entender o que aconteceu com o marido, e, junto com Ignes (Cláudia Abreu) ela vai descobrir que os segredos do passado sempre voltam para cobrar justiça.



Desalma’ é uma série complexa e muito instigante. Toda a direção de arte é extremamente hipnotizadora, com tons de azul e cinza dando o aspecto sobrenatural da série. Os figurinos, a trilha sonora, as locações e a produção de arte se alinham e conseguem transportar o espectador para uma parte do Brasil desconhecido para muitos, e somos levados a realmente acreditar (ou duvidar) de que a história realmente se passa no Brasil.

O roteiro escrito pela best-seller Ana Paula Maia é cheio de idas e vindas temporais, e, com tantos personagens (e atores jovens que não se parecem tanto assim com suas versões mais velhas) o espectador sente alguma dificuldade de entender quem é quem na trama. Também os diálogos causam estranheza – falas que se encaixariam muito bem em um texto literário, mas que parecem irreais quando faladas em voz alta, afinal, ninguém fala com essa cadência e entonação constantemente pausada no dia a dia. Talvez nesse quesito recaia um pouco da interpretação exageradamente solene do elenco, especialmente do núcleo juvenil de 2018. Um pouquinho mais de naturalidade não faria perder o mistério da trama.

Carlos Manga Jr., Pablo Muller e João Paulo Jabur alcançam uma direção harmônica ao equilibrar tantos elementos de ‘Desalma’ sem perder o foco do que realmente é o grande atrativo da série: o misticismo e a bruxaria, o medo pelo desconhecido, a cultura eslava, o suspense suave de um crime cometido no passado – elementos que são o fio condutor para a história. Em tempo: a tal festa de Ivana Kupala – que é uma celebração real dos povos eslavos – é o ápice dá série, no episódio 4, e tanto a versão de 1988 quanto a de 2018 brilham na tela como grandes festas em seus tempos.

Desalma’ é uma bela e hipnótica série, dessas que você não consegue largar porque fica completamente envolvido pelas personagens Halyna e Haia, pela mística Brigida e seu folclore ucraniano, pela imensidão da natureza do nosso Brasil e pela história que, devagarinho vai te envolvendo em sua teia. Como um bom feitiço de bruxa mesmo.

Janda Montenegrohttps://cinepop.com.br
Janda Montenegro é doutora-pesquisadora em Literatura Brasileira no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRJ com ênfase nas literaturas preta e indígenas de autoria brasileira contemporâneas. De origem peruana amazônica, Janda é uma palavra em tupi que significa “voar”. Desde 2018 trabalha como crítica de cinema nos portais CinePOP e Cabine Secreta. É curadora, repórter cultural, assistente de direção e roteirista. Co-proprietária da produtora Cabine Secreta e autora dos romances Antes do 174 (2010), O Incrível Mundo do Senhor da Chuva (2011); Por enquanto, adeus (2013); A Love Tale (2014); Três Dias Para Sempre (2015); Um Coração para o Homem de Lata (2016); Aconteceu Naquele Natal (2018,). O Último Adeus (2023). Cinéfila desde pequena, escreve seus textos sem usar chat GPT e já entrevistou centenas de artistas, dentre os quais Xuxa, Viola Davis, Willem Dafoe, Luca Guadanigno e Dakota Johnson.
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