Crítica | ‘Disco’ é o melhor álbum de Kylie Minogue em dez anos

CríticasCrítica | 'Disco' é o melhor álbum de Kylie Minogue em dez anos

Desde que atingiu sua maturidade com o subestimado Impossible Princess, Kylie Minogue vem apostando em revitalizações da própria carreira e até mesmo se aventurou no country-pop de Golden (que também merecia mais atenção por seu teor intimista e extremamente verdadeiro). Agora, em um ano que clamava por um escapismo artístico em meio a tantas tragédias e conturbações, Minogue resolveu visitar de novo as raízes oitentistas de seu début com uma apaixonante e dançante jornada intitulada Disco – seu 15º compilado de originais.

Desde o prematuro anúncio de que traria tendências clássicas do que se entende como a melhor era do pop, era inegável que sua legião de fãs ficaria em êxtase, aguardando o que a imperatriz australiana da indústria fonográfica lhes entregaria. Como era de se esperar, o forte primeiro single, “Say Something”, daria as cartas do jogo através de uma bombástica sutileza movida por sintetizadores e um cativante ritmo – canalizado para as outras duas canções promocionais, a sinestésica “Magic” e a irretocável “I Love It”. Não é nenhuma surpresa que a garantia de uma produção coesa era certeira, mas o que não esperávamos era que o CD seria uma homenagem não apenas a si mesma, mas a todas as divas que explodiram na época em questão – incluindo Gloria Gaynor, Diana Ross, Roberta Kelly e tantas outras. Mais do que isso, Minogue fez questão de, ao longo de doze faixas (dezesseis, se considerarmos as faixas extras da versão deluxe), não invadir o espaço de outros nomes da atualidade que também voltaram suas referências ao passado.

Disco, como o título já premedita, é uma infusão exuberante de disco-pop e faz flertes com o eurodance popularizado em 1970. Diferente de Dua Lipa, que mergulhou de cabeça no synth-dance com ‘Future Nostalgia’, e Lady Gaga, que entregou um apaixonante house com ‘Chromatica’, Kylie se restringiu a nos convidar para a pista de dança e a esquecer de nossos problemas – falando sobre amores platônicos e a paixão pela música com composições certeiras. No final das contas, não resta mais nada a se fazer por agradecê-la por um mimo que não sabíamos que precisávamos até darmos play na faixa inicial – e pelo fato dela ter, assim como sua iteração predecessora, um controle bem maior das próprias canções.

É notável como a performer se sente bem ao regressar à sua zona de conforto – mas não entenda isso como um comentário simplista; pelo contrário, esse “retorno da filha pródiga” é o que transforma a obra na melhor de Kylie Minogue em dez anos, desde que lançou o vibrante Aphrodite. A temática, por mais rasa que pareça, é mascarada pelo uso constante do baixo, da bateria e de um soubrette on point. Em “Miss a Thing”, contemporaneidade e nostalgia se misturam em uma sensual narrativa que nos enlaça do começo ao fim em uma montanha-russa melismática (cujo único problema é a longa duração). “Real Groove” é uma perfeita continuação assinada com múltiplas camadas vocais que lembram Michael Jackson e um deep-dance narcótico.

Minogue não pensa duas vezes antes de abarcar territórios normalmente inexplorados, como a agressividade percussional-eletrônica de “Supernova”, um dos vários ápices do álbum e até faz alusão a eras passadas com “Last Chance” – que nutre de similaridades com o icônico grupo ABBA e suas progressões transgressoras. Talvez a track mais surpreendente (e, na honesta opinião deste que vos fala, a excelência musical do CD) é o saudosismo tocante de “Where Does the DJ Go?”, comandada pelo poder incomparável de sua rendição quase teatral e crescendo soberbos que precedem um dos refrões mais sólidos do ano, estendendo suas ramificações inclusive para o gospel-pop. Kylie, há muito sofrendo com diversos problemas que perscrutavam sua vida pessoal e profissional, está se divertindo como num enredo que faz sentido não apenas para ela, como também para os fãs que a vêm acompanhando desde a estreia de “Locomotion” ainda em 1987.

A cantora e compositora também faz alguns movimentos arriscados que, apesar de não funcionarem totalmente (principalmente nas iterações que precedem a conclusão), mostram que ela ainda tem muito a nos contar. “Dance Floor Darling”, regada por versos que nos transportam de volta para o nova-iorquino Studio 54 e celebra a felicidade daqueles que buscam por um lugar “onde a música nunca acaba”. Entretanto, a discrepância estilística, escondida pela pungência de uma guitarra elétrica muito bem estruturada, começa a ganhar força num up-tempo inesperado e, infelizmente, fragmentado demais para ser aprazível. “Unstoppable”, por sua vez, dá um passo para trás e cede espaço a uma preamar semi-balada setentista que drena forças do baixo e da harmonização de seu coro. Por fim, “Celebrate You” é uma declaração romântica que, apesar de soar pueril quando justaposta as outras faixas, nos comove pela simplicidade das mensagens que passa.

Disco é um retorno digno à forma de uma das maiores popstars do mundo. Kylie, provando que permanece fiel às vertentes que a colocaram no topo do mundo à medida que não tem medo de ousar e de criar o impensável: uma carta de amor àquilo que lhe dá vontade e prazer de viver.

Nota por faixa:

1. Magic – 4,5/5
2. Miss A Thing – 3,5/5
3. Real Groove – 4/5
4. Monday Blues – 4/5
5. Supernova – 4,5/5
6. Say Something – 3,5/5
7. Last Chance – 4,5/5
8. I Love It – 5/5
9. Where Does The DJ Go? – 5/5
10. Dance Floor Darling – 3/5
11. Unstoppable – 3,5/5
12. Celebrate You – 4/5

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

Inscrever-se

Notícias

Olivia Rodrigo anuncia turnê do álbum ‘you seem pretty sad for a girl so in love’

A vencedora do Grammy Olivia Rodrigo revelou recentemente as datas...

10 Filmes SUPER Sangrentos

Tem filmes que usam do chocar em suas cenas...

10 DICAS de Filmes para quem sonha em ser advogado

Um dos cursos mais concorridos entre as universidades, sem...