Crítica | Dove Cameron e Avan Jogia explodem em cena com o instigante thriller erótico ’56 Dias’

Nos últimos anos, o subgênero dos thrillers eróticos vem ganhando um espaço considerável no cenário do entretenimento – não apenas conquistando os assinantes das plataformas de streaming, como encontrando certa recepção sólida por parte dos críticos, principalmente quando a ideia da narrativa não é se levar a sério e focar apenas no cerne do entretenimento. Não é surpresa que títulos como ‘Desejo Fatal’, ‘Sex/Life’ e ‘Verdades Secretas’ tenham se tornado favoritos dos espectadores – e, agora, o Prime Video nos convida para sua mais nova produção original, ‘56 Dias’, que traz ninguém menos que Dove Cameron (‘Descendentes’) e Avan Jogia (‘The Backrooms’) como protagonistas de um suspense enervante e recheado de reviravoltas.

Com o lançamento dos oito episódios em sua grade de programação, o projeto ganha pontos por não se render ao pedantismo narrativo e por acreditar naquilo que se propõe a fazer: logo de cara, somos apresentados aos dois protagonistas da trama. Ciara Wyse (Cameron) e Oliver Kennedy (Jogia), dois jovens muito atraentes que se conhecem por acaso na cafeteria próxima a seus respectivos trabalhos e que, desde o momento em que cruzam olhares, acendem uma chama de interesse e de paixão que esconde segredos obscuros e problemáticos que vão se desenrolando pouco a pouco.

Conforme somos engolfados no complexo e intenso relacionamento entre os dois, uma trama paralela se desenrola quase dois meses mais tarde, dando destaque à Detetive Lee Reardon (Karla Souza) e ao Detetive Karl Connolly (Dorian Missick), que investigam um brutal assassinato que ocorreu em um dos edifícios mais populares da cidade. A questão é que a cena do crime ocorreu no mesmo lugar onde Oliver mora – e onde começa a ter uma vida ao lado de Ciara, que, poucos dias depois de conhecê-lo, acaba se mudando para o apartamento em virtude de alguns “problemas” em sua casa alugada. Não demora muito até que comecemos a desconfiar de quem poderia estar naquela banheira e o que levou um casal aparentemente apaixonado a ser centro de um terrível crime.

Cameron e Jogia dão início a essa inebriante e quente jornada explorando o primeiro aspecto que procuramos em produções do gênero: a química. E, ao passo que se distanciam de papéis predecessores e mergulham em um belíssimo amadurecimento artístico um ao lado do outro, a dupla irrompe em explosivas centelhas que se tornam cada vez mais perigosas, principalmente quando descobrimos que, como já mencionado, ambos mantêm segredos que a qualquer momento virão à tona. Logo nos primeiros episódios, sabemos que Oliver está fugindo de um passado que insiste em persegui-lo, mergulhando em uma entorpecente espiral de loucura que se torna mais incontrolável dia após dia; Ciara, por sua vez, tem pendências com Oliver e faz de tudo para se aproximar dele até estar pronta para dar sua cartada final.

Em contraposição, Souza e Connolly trazem ainda mais peso dramático para o enredo, mostrando um lado mais calculista e melancólico que entra em conflito direto com o diabólico gostinho do medo e das mentiras que entrelaçam Ciara e Oliver em um vórtice de artimanhas – e tanto Lee quanto Karl lidam com seus próprios dilemas enquanto procuram o responsável por aquela hedionda tragédia. Não é surpresa que as showrunners Lisa Zwerling e Karyn Usher optem por uma narrativa não-linear que bebe muito de produções como ‘How To Get Away with Murder’, garantindo que a divisão do espaço-tempo não seja um empecilho para sermos arrastados para esse narcótico thriller.

É claro que a série não está livre de erros – e os convencionalismos se destinam a certas cacofonias nos diálogos que destituem os personagens da complexidade que poderiam ter e os colocam mergulhados em fórmulas cansativas e já vistas ad nauseam no cenário do entretenimento. Todavia, precisamos mencionar que a entrega do elenco protagonista e coadjuvante, que mostra várias vezes estar se divertindo em cada uma das cenas, é o bastante para nos manter engajados. E, servindo como apoio para devorarmos a temporada de uma só vez, as reviravoltas alcançam um nível de absurdez tão deliciosa que é impossível pararmos de assistir.

A distinção da série também se destina ao cuidado estético: a todo momento, a maioria dos personagens está envolta em uma melancólica e isolante fotografia azulada que os torna reféns de ressentimentos não resolvidos – acompanhados por letárgicos tons de vermelho que indicam um perigo constante. A exceção destina-se à personalidade ambígua e controversa de Ciara, que se mostra habilidosa ao ponto de chamar a atenção quando precisa, seja em meio a planos abertos ou seja ao ser o centro dos holofotes com pequenos detalhes que irrompem em cena.

‘56 Dias’ tem todos os elementos que compõe a popularidade inestimável dos thrillers eróticos contemporâneos, bebendo de clássicos tanto do cinema e da televisão para orquestrar um tour-de-force marcado por mentiras, sangue e assuntos pendentes. Movido pela necessidade de entreter, o novo original Prime Video se beneficia da presença de Dove Cameron e Avan Jogia para nos conduzir em meio a um jogo inescapável de poder e sexo.

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Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.