Crítica | ‘Dreamgirls’ chega aos palcos brasileiros em uma vibrante celebração da música e dos sonhos

CríticasCrítica | 'Dreamgirls' chega aos palcos brasileiros em uma vibrante celebração da música e dos sonhos

Em 1981, Henry Krieger e Tom Eyen uniam forças para um dos musicais mais aclamados e populares de todos os tempos – ‘Dreamgirls – Em Busca de um Sonho’. Assim que chegou aos palcos da Broadway, a produção se tornou um sucesso implacável, que lhe rendeu inúmeras estatuetas do Tony e que permanece estendendo seu necessário e representativo legado até os dias de hoje, principalmente por promover um encontro inesperado entre passado e presente e construindo uma ponte cujo reflexo é visto mesmo em pleno século XXI. Não é surpresa que a peça tenha se transformado em um elogiado filme comandado por Bill Condon e estrelado por nomes como Jennifer Hudson, Jamie Foxx e Beyoncé Knowles-Carter.

Agora, essa inspiradora história chega pela primeira vez aos palcos brasileiros pelas mãos de Gustavo Barchilon: a trama é centrada em um trio de cantoras amadoras de Chicago conhecido como The Dreamettes, cujo sonho é alcançar o estrelato em uma época em que cantores negros de soul, jazz, R&B e gêneros correlatos lutavam para alcançar o mínimo de reconhecimento em um país marcado pela segregação e pelas disputas raciais. Participando de concursos e tentando mostrar um talento inegável, Effie White (Letícia Soares), Deena Jones (Laura Castro) e Lorell Robinson (Samantha Schmütz) navegam pelas atribulações do show business e, a princípio e meio que a contragosto, são contratadas como backing vocals de Jimmy Early (Reynaldo Machado), um nome já estabelecido na indústria fonográfica.

A princípio felizes por estarem conquistando um merecido espaço, as tensões entre o grupo começam a escalar quando o empresário das Dreamettes, Curtis Taylor Jr. (Robson Nunes), rompe os laços com a parceria que tinha com Marty Madison (Eduardo Silva), responsável pela gerência da carreira de Jimmy, e decide tirar Effie da posição de solista principal em virtude de sua aparência e de sua poderosa presença de palco – algo que poderia assustar o público branco, o qual tentava dominar para a popularização do trio (agora renomeado como The Dreams). E isso não é tudo: ao colocar Deena no centro dos holofotes, Effie começa a perceber que Curtis está desenvolvendo uma afeição mais do que profissional pela amiga, levando-a a se transformar em uma pessoa movida pela frustração e pela decepção.

Estendendo-se pelas décadas de 1960 e 1970, a história funciona como uma grande carta de amor à música e finca suas inspirações nas artistas da MOTOWN (uma das principais produtoras da época, responsável por lançar ao mundo nomes como The Supremes e Ashford & Simpson) e na forma como o soul não apenas se sagrou como um dos principais gêneros das rádios, mas num palanque histórico de empoderamento e de libertação. Não é surpresa que o personagem de Curtis, por exemplo, nutra de similaridades com o lendário magnata Berry Gordy Jr., enquanto a construção artística de Effie seja uma clara homenagem a Diana Ross. E, ao longo de duas horas e meia que passam em um piscar de olhos, o resultado é mais do que aprazível e mostra que o musical já deveria ter chegado em território nacional há bastante tempo.

Barchilon promove uma reconfiguração espetacular da clássica versão da Broadway, reproduzindo-a fielmente à medida em que aposta em certos elementos únicos que refletem nossa defesa da brasilidade – seja nas rendições vocais, seja na forma como um elenco estelar e fabuloso encarna seus respectivos personagens, conduzindo-nos em uma mistura vibrante, colorida e dançante de drama e comédia. Apoiando-se na sólida tradução da dupla Bianca Tadini e Luciano Andrey, o diretor mergulha de cabeça no irruptivo cenário do entretenimento da época ao celebrar aqueles que trilharam caminho para tantos artistas contemporâneos, garantindo a máxima atenção do público e reiterando a importância de se conhecer o que veio antes.

Se os aspectos artísticos explodem em uma perfeição quase intangível – e, com isso, incluo os aplaudíveis figurinos e as envolventes coreografias assinadas por Rafa L. -, os técnicos seguem de perto e não deixam a desejar em momento algum. Apesar de algumas falhas rítmicas que destoam do restante da obra, nada é forte o suficiente para manchar a experiência dos espectadores, apostando fichas em uma sinestésica e frenética narrativa cujo ineditismo está em sua honestidade e na competência de cada um dos membros envolvidos no projeto.

‘Dreamgirls – Em Busca de um Sonho’ ganha os palcos brasileiros em uma formidável adaptação que merece ser apreciada em sua completude. Em cartaz no Teatro Santander, na cidade de São Paulo, a história de Effie, Deena e Lorell é uma celebração da arte como arte e dos sonhos como força-motriz do próprio ser humano, garantindo a maximização emocional e ovações deflagradas que nos enchem os olhos de beleza, sentimento e, é claro, o melhor da música.

Thiago Nolla
Thiago Nolla
Em contato com as artes em geral desde muito cedo, Thiago Nolla é jornalista, escritor e drag queen nas horas vagas. Trabalha com cultura pop desde 2015 e é uma enciclopédia ambulante sobre divas pop (principalmente sobre suas musas, Lady Gaga e Beyoncé). Ele também é apaixonado por vinho, literatura e jogar conversa fora.

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